ACompanhia Ensaio Aberto aposta em um teatro de risco. "Palavras", em cartaz na Sala Sérgio Britto do Armazém da Utopia até 11 de junho, coloca a atriz Tuca Moraes em um palco intimista — com capacidade para apenas 40 pessoas por sessão — para explorar o universo fragmentado de Clarice Lispector. Não é uma adaptação convencional. É uma imersão em frases, memórias, sentimentos e pensamentos da escritora, acumulados como em uma espiral, onde linguagem e sentidos se fazem à vista do público.
A proposta, assinada pela própria Moraes em dramaturgia e cena, sob direção de Luiz Fernando Lobo, invoca elementos do teatro narrativo e do teatro épico como ferramentas para desmontar a prosa de Clarice. Desde sua fundação em 1992, a Companhia Ensaio Aberto — coletivo teatral fundado por Lobo e Moraes — tem se dedicado ao teatro antiilusionista e à pesquisa de uma linguagem frontal na relação ator/espectador.
O teatro épico é um conceito desenvolvido por Bertolt Brecht, que busca provocar reflexão no espectador através da distância crítica, não da identificação emocional. Aqui, a atriz se deixa conduzir pelo "pulsar de palavras" enquanto o diretor intervém com operações de luz e trilha sonora que provocam e dialogam com seu desempenho.
O espaço cênico, projetado por J.C. Serroni, reforça essa intimidade. As 40 cadeiras dispostas na sala criam uma proximidade rara no teatro contemporâneo, onde cada gesto, cada respiração de Moraes é visível e compartilhado. A iluminação de Cesar de Ramires e o figurino de Beth Filipecki e Renaldo Machado completam uma visualidade que busca ser tão delicada quanto enigmática, o que remete à própria figura de Clarice Lispector..
A autora, morta em 1977, deixou uma obra que explora estados de consciência, a relação entre linguagem e realidade, e a experiência fragmentada do ser. Seus livros — "A Hora da Estrela", "A Paixão Segundo G.H.", "Água Viva" — são conhecidos por uma prosa que se recusa a confortar. A linguagem fragmentada é marca registrada de sua escrita: frases curtas, interrupções, associações inesperadas que acompanham o ritmo instável da mente humana. "Toda verdadeira arte é experimentação, e, lamento contrariar muitos, toda verdadeira vida é experimentação, ninguém escapa", afirma o diretor Luis Fernando Lobo.
Tuca Moraes descreve a experiência com precisão. "É um enorme desafio se jogar no abismo de Clarice, no abismo do mundo sem nenhuma linha de vida pra te salvar. O experimento é uma enorme desconstrução e uma aposta no encontro com cada espectador. É também levar ao extremo a relação de confiança atriz/diretor. Eu me jogo. Se estiver me afundando, sei que o Luiz Fernando Lobo vai intervir. É um jogo de risco. Um jogo de verdade", comenta, assumindo o estado de vulnerabilidade que alimenta o espetáculo. Não há personagem a esconder atrás, apenas a atriz e as palavras de Clarice.
Esse tipo de teatro — onde a vulnerabilidade é o próprio material — ressoa com tendências contemporâneas de performance que questionam a separação entre ficção e presença real. A Companhia Ensaio Aberto, premiada e com carreira internacional, é conhecida por pesquisas teatrais que combinam documentação, teoria e prática. Sua sede no Armazém da Utopia, reaberta ao público em 2024 após restauração, tornou-se um espaço de referência para teatro experimental no Rio de Janeiro. O Armazém 6, na Zona Portuária, abriga dois teatros e funciona como centro cultural multidisciplinar, hospedando desde apresentações até debates e oficinas.
SERVIÇO
PALAVRAS
Sala Sérgio Britto - Armazém da Utopia (Avenida Rodrigues Alves, s/n — Armazém 6, Zona Portuária)
Até 11/6, às quintas (19h)
Ingressos: R$ 60 e R$ 30 (meia)