Teatro

Tudo em prol da palavra

'Aurora' leva obra do cronista mineiro Paulo Mendes campos ao palcos cariocas em montagem experimental entrelaçada por diferentes linguagens artísticas

Tudo em prol da palavra
Elisa Pinheiro, Kadu Garcia e Gustavo Damasceno estãono elenco de 'Aurora' Crédito: Nil Caniné/Divulgação

Depois de uma temporada bem-sucedida em São Paulo no final de 2025, o espetáculo "Aurora — Uma homenagem à obra de Paulo Mendes Campos" chega ao Rio. A montagem, que marca o lançamento da primeira produção teatral da Bailinho Produções, está em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo. A peça reúne Elisa Pinheiro, Gustavo Damasceno e Kadu Garcia em cena.

Idealizado, roteirizado e dirigido por Rodrigo Penna — produtor cultural conhecido por criar eventos como o Bailinho e o Projeto Ambiente, um sarau contemporâneo que existe há 25 anos — o espetáculo é livremente inspirado na vida e na obra de Paulo Mendes Campos (1922-1991), um dos maiores cronistas da literatura brasileira. A consultoria de roteiro ficou a cargo de Adriana Falcão. O diretor conta que o projeto passou por mais de 40 versões ao longo dos anos, resultado de pesquisa intensiva e conversas com a consultora. "Quase um relicário esse espetáculo, uma caixinha de joias e pequenas ternuras do Paulo para o mundo", descreve Penna.

A estrutura não segue o modelo dramatúrgico tradicional. Em vez de uma narrativa linear com personagens definidos, "Aurora" é uma série de cenas e sentimentos que retratam a trajetória do escritor mineiro. O roteiro costura crônicas inteiras, fragmentos, cartas e colunas de periódicos, tudo entrelaçado por diferentes linguagens: música, projeção e performance. Os atores contam, encenam e recriam no palco as palavras e crônicas do autor. "A montagem é uma dança entre diferentes linguagens e mídias, tudo em prol da palavra", explica Penna. "Todos são Paulo Mendes Campos e, ao mesmo tempo, todas são também suas musas, os personagens, as cenas."

A direção de arte e cenografia de Marcus Figueiroa traz referências modernistas, criando ambientes do universo do escritor — seus apartamentos em Copacabana, escritórios e janelas para o mundo. A videocenografia dos artistas Bê Leite e Rodri (TocaHub), com consultoria audiovisual de Batman Zavareze, dialoga com o cenário. A trilha sonora, assinada por Rodrigo Penna, Chico Beltrão e Dani Roland, explora sonoridades pop. Os figurinos e direção de arte complementar são de Marie Salles.

Nascido em Belo Horizonte em 1922, o cronista integrou uma geração histórica ao lado de Fernando Sabino, Rubem Braga, Otto Lara Resende e Carlos Drummond de Andrade. Sua escrita mistura poesia e prosa de forma única: simples na aparência, mas repleta de delicadeza, memória e reflexão. Livros como "O cego de Ipanema", "Homenzinho na ventania" e "O amor acaba" exemplificam seu talento raro de transformar pequenas cenas da vida em literatura. Além de cronista e poeta, Mendes Campos foi tradutor de autores como Júlio Verne, Oscar Wilde, Jane Austen, Jorge Luis Borges, Shakespeare, Yeats, C. S. Lewis, Dickens, Flaubert, Maupassant e Neruda.

Rodrigo Penna presta ainda homenagem ao trabalho do ator e diretor carioca Aderbal Freire Filho (1941-2023), que desenvolveu uma pesquisa teatral chamada "romance-em-cena". "Nós nos vemos como um filhote do 'romance-em-cena', celebrando a crônica em cena", diz o diretor. Penna tem trajetória consolidada no teatro — participou de novelas como "Top Model", "Vamp" e "Paraíso Tropical", além de séries como "Engraçadinha" e "JK". Seu primeiro sucesso teatral foi aos 12 anos, com "Menino Maluquinho". Dirigiu ainda "Mãe Coragem", "O Ateneu" e "Esplêndidos", além de ter assinado a dramaturgia de "Eu nunca Disse que Prestava" em 2006.

A temporada no Rio marca um momento importante para a Bailinho Produções, que em 2026 celebra 20 anos da primeira edição da Festa Bailinho e dos eventos que surgiram dela — os "filhotes do Bailinho" — que continuam marcando presença na cena cultural carioca.

SERVIÇO

AURORA - UMA HOMENAGEM À OBRA DE PAULO MENDES CAMPOS

Teatro Poeira (Rua São João Batista, 104, Botafogo)

Até 24/6, às terças e quartas (20h) | Ingressos: R$ 100 e R$ 50 (meia)