Por: Affonso Nunes

A troca nada lisongeira de Wagner Moura

Wagner Moura durante participação no Late Night With Seth Meyers | Foto: NBC

Em sua primeira grande aparição na televisão americana durante a temporada de premiações de 2026, Wagner Moura entregou ao público do programa Late Night With Seth Meyers uma história hilária. Na entrevista exibida na última segunda-feira (6), o ator baiano revelou os bastidores inusitados de sua vitória histórica no Festival de Cannes de 2025, quando se tornou o primeiro brasileiro a conquistar o troféu de melhor ator na competição oficial do festival francês. Wagner confessou que se ausentou da cerimônia de premiação porque sentiu vergonha de pedir folga.

O ator explicou que, na época do festival, estava em Londres gravando um filme quando recebeu a notícia da vitória por "O Agente Secreto". Embora tecnicamente estivesse de folga no dia da premiação, a equipe de produção solicitou seu retorno ao set para gravar cenas extras. "Eu não podia dizer: eu preciso ir para Cannes porque acho que eu posso vencer um prêmio. Fiquei com vergonha, então topei", admitiu o ator. "Colocaram uma sacola de plástico na minha mão e me filmaram pegando merda de cachorro do chão", relembrou Wagner, arrancando gargalhadas do apresentador e da plateia.

A entrevista faz parte da campanha promocional de "O Agente Secreto", filme dirigido por Kleber Mendonça Filho, traçada pela Neon - responsável pela distribuição do longa no exterior. E vem funcionando. Seth Meyers não escondeu o entusiasmo pela produção brasileira. "É um filme muito divertido, muito engraçado, dá vontade de visitar o Brasil. Eu nunca fui, mas até numa ditadura parece ser mais divertido do que qualquer coisa que eu estou fazendo", brincou o apresentador.

"O Agente Secreto" já garantiu sua posição como representante do Brasil na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional e conquistou dois prêmios importantes em Cannes 2025: Melhor Diretor para Kleber Mendonça Filho e Melhor Ator para Wagner Moura. No último domingo, o thriller político de Mendonça Filho sagrou-se como Melhor Filme Estrangeiro no Critic's Choice Awards, totalizando 48 premiações desde seu lançamento, e chega neste domingo (11) com quatro indicações ao Globo de Ouro.

"Sinto que o prêmio do 'Critics Choice' deu uma visibilidade ainda maior para 'O Agente Secreto', que está tendo uma carreira excelente nos cinemas dos Estados Unidos. Nós agora estamos em Nova York para dar continuidade a essa agenda. O fato de termos apresentado o Melhor Filme, de certa forma, amenizou uma falta de atenção da Critics Choice Association com uma das grandes safras históricas de cinema feito fora dos Estados Unidos — num momento político do país, onde o elemento estrangeiro tem sido muito debatido. Teria sido importante destacar o cinema internacional, com uma apresentação no palco dos indicados. Mas, de toda forma, está tudo certo, foi bom apresentar, ao lado de Wagner, o prêmio de Melhor Filme para Paul Thomas Anderson, um cineasta da minha geração, e que admiro", comenta Kleber Mendonça Filho sobre a cerimônia do Critic's Choice Awards e a temporada de premiações.

Publicações especializadas como The Hollywood Reporter e Variety já incluem o ator brasileiro em suas previsões de finalistas para a categoria de Melhor Ator, colocando-o em disputa direta com nomes como Michael B. Jordan e Ethan Hawke.

O reconhecimento internacional de Wagner vem acompanhado de transformações físicas que não passaram despercebidas. Durante a conversa, ele mencionou ter ganhado 18 quilos para interpretar Pablo Escobar na série "Narcos", ao que Seth Meyers respondeu com um elogio que resume a trajetória ascendente do brasileiro em Hollywood: "Você está numa ótima trajetória, só fica mais bonito! Isso não acontece com muita gente em Hollywood, então parabéns".

Em sua participação no talk show exibido pela NBC, Wagner abordou questões políticas que envolvem "O Agente Secreto". "O que deu origem ao filme foi o que aconteceu no Brasil entre 2018 e 2022, quando o Brasil passou por... Eu nunca sei como descrever. Tínhamos um... Um presidente fascista". Seth Meyers concordou imediatamente: "Acho que assim está bom. Nós temos uma ideia do que você está falando".

Wagner retomou o termo ao refletir sobre a importância cultural do cinema brasileiro no contexto de resistência democrática: "O manual fascista é atacar primeiro as universidades, os jornalistas e os artistas. E eles conseguiram transformar os artistas em inimigos do público. Então desde o ano passado, quando 'Ainda Estou Aqui' venceu o Oscar, ver os brasileiros torcendo pelos artistas e acreditando que nós os representamos, tem sido lindo e estou muito felho", disse, estabelecendo uma continuidade entre diferentes produções brasileiras e seu papel na reconstrução da relação entre público e classe artística.