Por: Affonso Nunes e Rofrigo Fonseca

A casa de verdades

Vladimir Carvalho no set de filmagens de 'O País de São Saruê' (1971), um retrato sobre a seca em sua Paraíba natal, um dos títulos da grade do DOC Canal Brasil | Foto: Reprodução

Cinema documental ganha espaço no streaming com o DOC Canal Brasil e Curta!On, com grades dedicadas a obras de tintas autorais

 

A casa do cinema brasileiro no streaming e na TV paga ganha um novo cômodo. O Canal Brasil acaba de inaugurar sua primeira plataforma dedicada exclusivamente ao documentário nacional. O DOC Canal Brasil chega ao mercado pelo Prime Video reunindo um acervo estimado em 2 mil produções entre filmes, séries e programas que abrangem diferentes períodos e vertentes do gênero no país. A iniciativa representa uma aposta na valorização de um segmento historicamente fundamental para o audiovisual brasileiro, mas que ainda enfrenta desafios de circulação e visibilidade.

O cinema documental ocupa importante espaço em nosso audiovisual, chegando a corresponder a 45% do total de produções nacionais. De acordo com o Anuário do Cinema Brasileiro, em 2024 a Ancine certificou 1.176 documentários brasileiros.

"Estamos lançando o streaming definitivo de documentários brasileiros, projeto pioneiro e um dos únicos do mundo, que vai englobar um universo documental muito completo. A ideia é popularizar, difundir e estimular a produção de obras documentais no Brasil", afirma André Saddy, diretor geral do Canal Brasil.

A plataforma estrutura sua proposta em torno de três eixos centrais: curadoria, que orienta a seleção do acervo; espelho, que busca refletir a diversidade cultural e social brasileira; e conteúdo, voltado para produções que conjuguem informação e potencial de entretenimento. Entre os diferenciais apresentados estão a presença de obras premiadas, a preservação de títulos raros digitalizados e o estímulo a novos realizadores.

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Cabra Marcado pra Morrer | Foto: Divulgação

O catálogo inicial traz nomes que marcaram a consolidação do documentário brasileiro. Da filmografia de Eduardo Coutinho, estão disponíveis "Cabra Marcado Para Morrer" (1983), "Santo Forte" (1999), "Babilônia 2000" (2000), "Edifício Master" (2002), "O Fim e o Princípio" (2005), "Jogo de Cena" (2007) e "Últimas Conversas" (2015). Também integram o acervo "Ônibus 174" (2001), de José Padilha, "Jango" (1984), de Silvio Tendler, "A Negação do Brasil" (2000), de Joel Zito Araújo, e "Que Bom Te Ver Viva" (1989), de Lúcia Murat.

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Jango | Foto: Divulgação

A obra de João Moreira Salles aparece representada por "Entreatos" (2004), "No Intenso Agora" (2017), "Nelson Freire" (2003) e "Notícias de uma Guerra Particular" (1999). Entre as produções mais recentes, estão "Aeroporto Central" (2018), de Karim Aïnouz, "Bixa Travesty" (2018), de Kiko Goifman e Claudia Priscilla, "Antonio Candido - Anotações Finais" (2024), de Eduardo Escorel, "No Céu da Pátria Nesse Instante" (2025), de Sandra Kogut, e a série "Primavera nos Dentes - A História do Secos & Molhados" (2025), de Miguel De Almeida. Completam a lista títulos como "Uma Noite em 67" (2010), de Renato Terra e Ricardo Calil, "A Entrevista" (1966) e "Carmen Miranda: Bananas Is My Business" (1995), de Helena Solberg, além de "Rock Brasília - Era de Ouro" (2011) e "O País de São Saruê" (1971), de Vladimir Carvalho.

 

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Notícias de uma Guerra Particular | Foto: Divulgação

Um pedacinho plural de Brasil

Cena de 'Paulo César Pinheiro - Letra e Alma', um roreiro doce e preciso | Foto: Divulgação

 

Coisa mais linda da grade da TV aberta dos últimos dias, "Paulo César Pinheiro - Letra e Alma" foi exibido às 2h na grade do Curta! e só retorna à grade da emissora no dia 20 de abril, com sessão às 18h30. Como essa joia, lançada online durante a pandemia, em 2021, no É Tudo Verdade (o maior festival de documentários das Américas), não teve espaço à sua altura em circuito, o Correio da Manhã foi atrás de caminhos para assisti-la e chegou ao Curta!On, a plataforma digital onde o canal de mesmo nome desova seu garimpo. Tem muita coisa boa lá. Feito para se suspirar, "Paulo César Pinheiro - Letra e Alma" foi dirigido por Andrea Prates e por Cleisson Vidal, impondo-se pela poesia que encobre a simplicidade.

A montagem de Léa Van Steen é seu maior trunfo. Que roteiro doce e preciso, vitaminado por uma dinâmica inventiva no emprego de imagens de arquivo, essa produção tem. Compositor dos mais prolíficos, PCPinheiro é um dos poetas mais celebrados da música brasileira, autor de "Canto das Três Raças" e "O Poder da Criação", entre outros clássicos do samba, do samba-enredo e da canção.

Parceiro de Baden Powell, Tom Jobim e Edu Lobo, Pinheiro foi gravado por Elis Regina, Clara Nunes e Maria Bethânia. Sentado em seu sofá, sob uma delicada fotografia em preto e branco, ele reflete sobre a natureza de suas canções, relembra o passado e revê a carpintaria poética canções de protesto contra a ditadura militar. Num clímax do longa, ele canta a geopolítica do Rio nos versos: "Ninguém faz mais jura de amor no Juramento/ Ninguém vai embora do Morro do Adeus/ Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres/ E a vida é um inferno na Cidade de Deus. Não sou do tempo das armas/ Por isso ainda prefiro/ Ouvir um verso de samba/ Do que escutar som de tiro/ Pela poesia dos nomes de favela/ A vida por lá já foi mais bela".

Ganhador do Festival de Brasília de 2020, "Por Onde Anda Makunaíma?", de Rodrigo Séllos, não teve vez em circuito, mas está no Curta!On. É uma produção egressa de Roraima, com 84 minutos de afirmação de identidade na veia, em um estudo sobre os mitos que fundam a Pangeia latina, a partir do legado das populações indígenas. O livro de Mário de Andrade (1893-1945) sobre um heróis de caráter duvidoso é um de seus vértices. Pautado em um roteiro sólido como rocha, construído a partir de uma estrutura assinada por Juliana Colares (alimentada por uma pesquisa feita por ela e Klaus Schmaelter), o longa parte do registro de Makunaima como sendo um mito para povos da Tríplice Fronteira Brasil-Venezuela-Guiana, registrado em livro pela primeira vez no início dos anos de 1910, pelo etnólogo alemão Koch-Grünberg. É ele quem faz a ponte entre o extremo norte da América do Sul com o Brasil.

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Streaming carioca dá holofotes ao ensaio documental de Hilton Lacerda e Lírio Ferreira sobre Carlota, de 2006 | Foto: Divulgação

Ensaios documentais sobre titãs do samba que mobilizaram festivais brasileiros nos anos 2000 hoje se depositam nas estantes virtuais do Curta!On, fazendo dele uma Marquês da Sapucaí na streaminguesfera. O melhor exemplo é "Cartola - Música Para Os Olhos" (2006), da dupla pernambucana Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Seguem a mesma toada retratista "Candeia" (2018), de Luiz Antonio Pilar, e "Lupicínio Rodrigues: Confissões De Um Sofredor" (2023), de Alfredo Manevy. Outro golaço do www.curtaon.com.br é "Damas do Samba" (2015), de Susanna Lira, com relatos de Alcione, Beth Carvalho, Tia Surica, Rosa Magalhães, Leci Brandão, Nilcemar Nogueira, Ivone Lara, Marienne de Castro.

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'Lupicínio Rodrigues: Confissões de um Sofredor' é um dos achados do streaming do canal Curta! | Foto: Divulgação

Num terreno da inclusão, o Curta!On celebra a força da educação como motor do humanismo ao escalar "Atravessa a vida" (2021), de João Jardim. O longa acompanhou o cotidiano de uma turma do 3º ano, no interior do Sergipe, que se preparava para o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), em 17 de janeiro de 2021. O documentário mergulha no universo escolar e adolescente dos jovens de Simão Dias, cidade de 40 mil habitantes no interior sergipano. O Centro de Excelência Dr. Milton Dortas, escola com cerca de mil alunos, representa um recorte das dificuldades na educação brasileira. Enquanto buscam o sonho de garantir um ensino superior gratuito, os alunos refletem temas urgentes - dentro e fora de sala de aula - como futuro, depressão, aborto, pena de morte e Ditadura Militar.

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'Atravessa a Vida', de João Jardim, é uma triagem sobre educação a partir do Enem | Foto: Divulgação

Pluralidade é o que não falta no Curta!On.