Quadrinhos

Carpintaria com balõezinhos

Mestre do terror no cinema, o diretor John Carpenter, fora das telas desde 2010, mobiliza o mercado de HQs em múltiplas latitudes, a começar pela confecção do quadrinho 'Cathedral'

Carpintaria com balõezinhos

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

F16 anos que o cinema lamenta a ausência de novos filmes de John Carpenter, afastado da direção desde suas frustrações rodando "Aterrorizada" (2010), último longa-metragem de uma obra multimídia, notável sobretudo na música, por seu trabalho como compositor, que agora se expande pelas vias do papel... em balõezinhos. Não há Homem-Aranha nem Batman que tire da graphic novel "Cathedral" (editada lá fora pela Storm King Comics) o título de "melhor quadrinho do ano".

O cineasta nova-iorquino de 78 anos foi seu idealizador, e assina o roteiro ao lado de sua mulher, a produtora e editora Sandy King, e do escritor Sean Sobczak. Os desenhos são de Federico De Luca, com ilustrações de Luis Guaragna.

A publicação, que não para de mobilizar buscas na web, foi idealizada para ser sorvida pela massa leitora acompanhada por um álbum de hard rock composto com o filho de John, Cody Carpenter, e Daniel Davies. Essa pérola gráfica já pode ser encomendada via Amazon.

A trama nasceu de um sonho do realizador de cults como "Halloween" (1978), "O Enigma Do Outro Mundo" (1982) e "Eles Vivem" (1988): uma catedral abandonada no centro de Los Angeles, com elevadores que conduzem a profundezas infernais. O pesadelo ganhou forma de história em quadrinhos e acompanha uma equipe de policiais que entra na tal igreja depois do assassinato brutal de um agente. No enredo, a tenente Christine Marks, acompanhada pelos detetives Paul Hernandez e Steve Mayfield, precisa entrar no templo em busca do monstro que matou seu pai.

A cada passo, os três avançam pelas entranhas daquele "terreno sagrado", descobrindo a cada trecho do caminho o mistério de uma antiga entidade maligna aprisionada em seu interior. Por séculos, xamãs, guerreiros e sacerdotes combateram um poderoso demônio, mantendo-o confinado àquele pedaço de terra. Agora, ele tenta ressurgir, e os três investigadores terão de desvendar os segredos daqueles que os precederam para encontrar a criatura e pôr fim, de uma vez por todas, a uma batalha que atravessa séculos. Sua resistência, determinação e fé serão testadas, enquanto cada pequena vitória os aproxima cada vez mais de horrores indescritíveis, apenas insinuados em mitos e pesadelos.

A Storm King Comics foi criada em 2012 para levar às HQs modos inusitados de explorar horror e ficção científica, os gêneros por excelência do multiartista que dirigiu "Vampiro$" (1998). Seu principal título antes de "Cathedral" era "John Carpenter's Asylum". Junte a ele "Tales for a HalloweeNight" e a série mensal de antologias "John Carpenter's Tales of Science Fiction", que reuniu histórias concebidas a partir de ideias do cineasta, com roteiros de Mike Sizemore e desenhos de Dave Kennedy, explorando territórios sombrios das narrativas espaciais.

Desde 2018, a Boom! Studios, por sua vez, mantém uma produção recorrente de derivados quadrinizados de "Os Aventureiros do Bairro Proibido" ("Big Trouble in Little China", 1986). Tais historietas exploram o lado heroico do caminhoneiro Jack Burton, personagem celebrizado por Kurt Russell, muso de Carpenter. Snake Plissken, personagem mais famoso da dupla, visto em "Fuga De Nova York" (1981), também inspirou uma linha de revistas em quadrinhos.

A ironia por trás dessas adaptações é que Carpenter nunca esteve interessado em transformar sua obra numa indústria de propriedade intelectual. Seu cinema nasceu da independência.

"O cinema de horror é político, crítico por natureza, o que exige de seus realizadores a necessidade de se trabalhar de forma independente da vontade dos estúdios", disse ele à Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro (ACCRJ), em entrevista para o livro "O Medo É Só Começo", publicado em 2012, em meio a uma retrospectiva de sua filmografia no Festival do Rio. "De modo geral, as pessoas têm medo das mesmas coisas: morrer, sofrer... Com a consciência do medo, eu posso trabalhar de modo mais frio. Eu fui parar no terror para poder sobreviver, mas queria mesmo era fazer faroeste. No terror, encontrei um espaço para criar."

Homenageado pelo Festival de Cannes de 2019, ao receber o troféu honorário Carroça de Ouro, da Quinzena de Cineastas, Carpenter encontrou esse espaço em 1978, quando "Halloween" virou um marco do terror moderno, consagrando o filão slasher.

"Há um mistério que me acompanha desde a minha primeira incursão por uma sala de cinema, em 1951, quando eu tinha 3 anos, e fui ver 'Uma aventura na África', estrelado por Humphrey Bogart, com meu pai. Perguntei a ele onde ficavam aquelas pessoas que eu via na tela e ele me respondeu; 'Elas moram na luz'. Até hoje, já septuagenário, eu ainda vivo atrás dessa luz", disse Carpenter na Croisette. "Transportar plateias para o mundo da luz e para as sombras que as rodeiam é a minha missão". Isso vale para as HQs.

Fã ardoroso de Carpenter, o cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho homenageou o mestre dando seu nome aportuguesado ao liceu de "Bacurau" (2019): Escola João Carpinteiro.