Rodrigo Fonseca
Especial para o Correio da Manhã
Eentrando em seus finalmentes, junho roga a Deus e manda bala sobre julho, nas lojas especializadas em quadrinhos (ou BDs, Banda Desenhada), com a publicação de "Wyoming, 1863 - L'Arbre au Pendu", de Fabrizio Des Dorides e Jan-François Di Giorgio. Lançada pela Ed. Soleil, sua narrativa transforma a fera no gatilho Emma Bridges numa heroína pop. Com ela, um cheirinho de pólvora que só se acha no faroeste se espalha por um dos mercados editoriais mais sólidos para as HQs, em todo o planeta. Não por acaso, outras editoras francesas, belgas e italianas preparam novidades, de julho até dezembro, para um território selvagem (porém, fértil de ideias) que nunca cessa de vender álbuns gráficos e revistinhas, mas passa por revisões éticas para se adequar à demanda do revisionismo histórico.
Além de dar conta da demanda global por empoderamento feminino, com toda a fúria da supracitada Sra. Bridges, temas decoloniais eclodem nos balõezinhos com a chegada do encadernado de Marshall Bass, pela Ed. Delcourt, a mesma que publicou a obra-prima "Après la Nuit", saga de vingança de Henri Meunier e Richard Guérineau. No Brasil, o debate antirracista no bangue-bangue ainda fica limitado a "Deadwood Dick", que ganhou um tijolaço de 448 páginas da Panini Comics, baseado em contos de Joe R. Lansdale. Esse material hoje está à venda com desconto de peso na Amazon.
Por aqui já chegou também o western quadrinizado que celebra a peleja dos povos originários contra a colonização: "Hoka Hey!", hoje um fenômeno em toda a Europa graças à excelência da arte de Neyef (pseudônimo de Romain Maufront). A publicação sai aqui pela editora Taverna do Rei. Sua trama se passa em 1850, quando Georges, um jovem Lakota, criado pelo pastor responsável pela administração de sua reserva, distancia-se de suas raízes e começa a aspirar por um futuro moldado pelo estilo de vida branco. Uma virada violenta há de mudar seu curso.
Preparando-se para explorar o lado mais sangrento da América do século XIX (por prismas mais democráticos) em "Big Sky" (escrita por Serge Perrotin e desenhada por Marc Bourgne), prevista para setembro, a editora Glénat reciclou a relevância do faroeste nas livrarias e BDtecas (lojas especializadas em BDs) da Europa ao lançar "OK Corral". É uma HQ sobre a batalha mais famosa do xerife Wyatt Earp (1848-1929). O roteiro de Jean-David Morvan recria a amizade do homem da lei com o pistoleiro tuberculoso Doc Holliday, numa narrativa épica desenhada por Thomas Tcherkézian, Scietronc e Rey Macutay.
No Velho Mundo, em 2026, quando se fala em bangue-bangue, a referência mais citada são os 80 anos de Lucky Luke, criado pelo belga Maurice de Bévère (1923—2001), o Morris, em 1946. Álbuns de luxo do personagem estão à venda com desconto em redes livreiras como a Fnac e a Éditions Black & White acaba de publicar "La Longue Marche de Lucky Luke", de Matthieu Bonhomme, a fim de festejar a efeméride. Saiu ainda um especial do periódico "Les Cahiers de la BD" acerca do caubói da Bélgica. Em novembro, sai um álbum inédito, "Saint Lucky Luke", dos artistas Achdé e Jul, herdeiros de Morris. Essas publicações se articulam com a chegada de uma série sobre o personagem no Disney , estrelada por Alban Lenoir.
Já nos Estados Unidos, o western vive um momento curioso. Embora distante da popularidade dos super-heróis, o gênero voltou a despertar interesse editorial. A DC anunciou para 2026 uma nova série regular de "Jonah Hex", anti-herói deformado criado por John Albano e Tony DeZuniga em 1972. A iniciativa integra o selo Next Level, voltado para revitalizar personagens clássicos da editora. Paralelamente, a DC colocou em circulação uma nova edição encadernada de "Jonah Hex: Face Full of Violence", reunindo histórias escritas por Jimmy Palmiotti e Justin Gray, autores responsáveis pela fase mais celebrada do personagem no século XXI.
Ainda nos Estados Unidos, as balas dos colts zumbem pelos balõezinhos de "Outlaw Showdown", da EC Comics, editada em parceria com a Oni Press. A antologia reúne histórias de western com elementos de horror, incluindo a elogiada "Fire in the Hole", escrita e desenhada por Tony Moore, artista que ajudou a criar o visual da aclamada "The Walking Dead".
A Bonelli hoje alimenta o ânimo dos fãs de western ao publicar a delícia "Bella & Bronco". Essa saga foi originalmente publicada na Itália, em 16 edições, de julho de 1984 a outubro de 1985, pela Editoriale Daim Press, atual Bonelli. A If Edizioni, entretanto, é a atual detentora dos direitos de licenciamento da série. No Brasil, a HQ foi publicada incompleta em apenas oito edições lançadas em formatinho em 1990, pela Editora Globo, e sai hoje pela Saicã, num trabalho primoroso.
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