Essencial à cena alternativa da HQ carioca, conhecido ainda como animador e agitador cultural, o quadrinista e diretor de desenhos Johandson Rezende foi buscar na Realengo onde nasceu, 48 outonos atrás, inspiração para um experimento que funde literatura e ilustração: "Jambo!". É uma evocação às clássicas revistas literárias da arte da prosa e da poesia, mas com um pé no quadrinho, terreno onde o artista visual emplacou pérolas gráficas como "Cartoondelia" e "O Pai".
O periódico que ele tira do forno agora será lançado no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) neste sábado, das 12h às 19h. O preço é camarada: só dez merréis. Suas 32 páginas juntam escritos de 11 talentos. Cada texto recebeu uma ilustração colorida exclusiva, da grife Johandson. A seleção de escribas da primeira edição inclui Priscila Branco, Vivian Pizzinga, Danielle Schlossarek, Henrique Badke, André Salviano, Guillherme Preger, Renato Amado, Cecile Mendonca, Valéria Martins, Wagner Guimarães e George Patiño.
Ligado a publicações cultuadas, como o fanzine "Mea Culpa" e as HQs "Freak World" e "Tarja Preta", Johandson explica a seguir qual é a geografia que está em "Jambo!".
O que é a "Jambo!" e o que ela carrega de "autogeográfico"?
Johandson Rezende - A "Jambo!" é um projeto de resistência e afeto. É uma revista de bolso, colorida, que une 11 escritores e as minhas ilustrações para democratizar o acesso à arte. O "autogeográfico" dela está na raiz: o nome vem das reuniões que eu e meus amigos fazíamos em Realengo, debaixo de um pé de jambo. Ali, a gente criava nosso próprio ecossistema: um escambo de livros, quadrinhos, filmes e discos. Tentávamos fazer o material circular naquele pé de jambo porque o acesso oficial era difícil. A revista resgata esse DNA da troca e da sobrevivência criativa fora dos grandes eixos.
Como você define esse corpus de artistas que milita na Jambo?
É um mapa literário do Rio. Temos autores de diferentes zonas e realidades: desde quem compartilha minha origem, em Realengo, como o Wagner Guimarães, até escritores da Zona Sul, da Tijuca e de outros bairros. Essa mistura de CEPs mostra que a periferia e o centro podem ocupar o mesmo espaço de prestígio. É uma frente unida de produção independente.
Zé-pereira do mundo gráfico, você vem trilhando um caminho de bravura com edições solo. O que o mundo do papel ainda te oferece no espaço da invenção?
O papel oferece o tato, a permanência e a pausa que o digital não entrega. É um objeto que você carrega no bolso, empresta, rabisca. Viabilizar a "Jambo!"
Como viabilizou "Jambo!"?
Foi um exercício de independência pura: paguei do próprio bolso. Escolhi o formato pocket para ser barato (R$ 10) e fácil de circular. É a prova de que não precisamos esperar por grandes editoras para colocar nossa voz no mundo.
Qual é o Rio de Janeiro da revista e qual foi o Rio em que você nasceu e cresceu?
O Rio da revista é o Rio do encontro, da literatura que viaja no trem e no ônibus. Eu nasci e cresci em Realengo, entre 1978 e 2006. Era um Rio de Janeiro de muita carência de recursos, mas de uma inventividade absurda. A gente criava nossos próprios mundos porque o "Rio oficial" não chegava até nós.
O que o quadrinho te ensinou sobre viver no Brasil e resistir a este mundo? Que novos quadrinhos você prepara? E filmes animados?
O quadrinho me ensinou que a nossa realidade pode ser redesenhada. No Brasil, fazer arte é um ato político de teimosia. Aprendi que a colaboração é o que nos mantém vivos. Atualmente, estou participando do segundo número da revista da banda de punk horror Morcegula e já estou em pleno processo de preparação para o segundo número da "Jambo!", além de continuar com as animações para redes sociais divulgando a música independente.
Você foi um agitador cultural à frente do Cine Joia. O que o cinema te deu de mais potente para lidar com as artes?
O cinema me deu o senso de narrativa e o valor do "mão na massa". No Cine Joia, eu fui de bilheteiro a faxineiro; projetava os filmes, criava eventos com esquetes de teatro e cineclubes de clássicos. Editava a revista do cinema, organizava shows, desenhei o uniforme da equipe e fazia as animações da sala. Essa vivência me ensinou que a arte não é só o brilho. É o trabalho duro de fazer acontecer. Isso se reflete na "Jambo!": eu cuido de tudo, do traço à viabilização. Já realizei diversas animações, com destaque para três curtas autorais exibidos no Anima Mundi, MAM, Cine Joia e no Festival de Cinema da Bahia.