Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Blueberry em marcha

Tramas de Charlier e Giraud para o personagem parecem um filme de Sam Peckinpah | Foto: Divulgação

A editora Pipoca & Nanquim traz ao Brasil coletânea comemorativa de 60 anos do herói torto do Velho Oeste criado por Charlier e Giraud, com historietas de bambas da arte gráfica atual

Tenente Blueberry está de casa nova entre nós, de álbum novo, comemorando suas seis décadas de revolução do filão bangue-bangue nas HQs. No alvorecer da década de 1990, quando esse oficial abusado cavalgou pelo Brasil, importado de sua França natal pela Ed. Abril, em revistas no mesmo formato do best-seller "A Espada Selvagem de Conan" (21 cm x 27cm), a sensação dos leitores de então era ter "Meu Ódio Será Sua Herança" (1969), de Sam Peckinpah (1925-1984) - ou qualquer outro marco do western moderno - nas mãos. Parecia um filme em papel. Com semblante similar ao do astro Jean-Paul Belmondo (1933-2021), Michel Steven Donovan (ou só Mike Blueberry), o protagonista do quadrinho, era um oficial sem uma gota de disciplina que, mais adiante vira um ás do carteado e, depois, delegado, sem perder a mira jamais.

Acostumado ao bom-mocismo digno de paladino dos italianos "Tex" e "Zagor", da Sergio Bonelli Editore, o público nacional afeito ao faroeste encontrou ali um universo sujo, de um heroísmo torto e suarento, que só o politicamente poético das HQs francesas, as BDs (Bande Dessinées), sabem fazer. O gatilho infalível do roteirista Jean-Michel Charlier (1924-1989) inflamava tramas de cunho geopolítico (com foco no combate ao racismo e no desbravamento de uma nação), com palavras em erupção, que o deus do traço Jean Giraud (1938-2012), mais conhecido como Moebius, desenhava com realismo digno de um "Rastro de Ódio" (1956). A experiência gráfica que se tinha na época - isso depois de o personagem já ter passado por aqui via importações da Ed. Meribérica, de Portugal - se faz repetir agora com o delicado trabalho editorial da Pipoca & Nanquim num resgate de Mike Blueberry em meio à celebração dos 60 anos de seu primeiro álbum.

É de salivar o anúncio que o site oficial da editora brasileira faz de "Na Trilha de Blueberry", um almanaque comemorativo com 127 páginas coloridas. Em meio a um vasto time de 34 artistas (entre roteiristas, desenhistas e coloristas), composto por veteranos e novatos, a coletânea traz nomes como Enrico Marini ("Batman: O Príncipe Encantado das Trevas"), Correntin Rouge ("Rio"), Fred Duval ("Ninfeias Negras"), Matz ("O Desaparecimento de Josef Mengele"), Vincent Brugeas ("Republic of the Skull"), Ronan Toulhoat ("Conan, o Cimério"), Paul Gastine ("O Último Homem") e Mathieu Mariolle ("Blue Note: Os Últimos Dias da Lei Seca"). Os estilos de desenho são dos mais variados, mas os perigos do Oeste seguem iguais.

"Blueberry não é apenas um dos melhores faroeste em quadrinhos de todos os tempos, mas pura e simplesmente um dos melhores quadrinhos de todos os tempos, independente do gênero, país ou época em que foi publicado", diz Alexandre Callari, um dos sócios-fundadores da Pipoca & Nanquim. "Ser a editora que conseguiu trazer a obra completa para o Brasil pela primeira vez, mais de seis décadas após o lançamento original, enche-nos de orgulho. É uma contribuição inestimável para o nosso mercado editorial".

Charlier e Giraud introduziram Blueberry à massa leitora europeia em 1963, só que de forma serializada, ocupando páginas da revista "Pilote". Em 1965, veio a publicação do primeiro álbum completo da saga, "Forte Navajo". A fim de festejar suas seis décadas no Velho Mundo, a editora Dargaud resolveu oferecer a alguns dos bambas doas quadrinhos supracitados — que cresceram acompanhando a longa jornada do irrefreável tenente rebelde — a chance de dar uma contribuição pessoal à sua história, desenvolvendo (com total autonomia) suas próprias narrativas curtas estreladas pelo bravíssimo Mike.

Além de 14 releituras, "Na Trilha de Blueberry" ainda traz as declarações emocionadas dos autores sobre sua relação íntima com o personagem, com prefácio assinado pelos editores originais e uma galeria com ilustrações exclusivas de mestres como Milo Manara, Blutch e Ralph Meyer. Hoje em pré-venda no https://pipocaenanquim.com.br/, esse tijolo ilustrado está à venda por RS$ 76,93. Dele, a editora lançou ainda "Marshall Blueberry", compilando uma minissérie de por Jean Giraud, William Vance e Michel Rouge. Tem mais uns quatro álbuns da saga "Blueberry - Edição Definitiva".

Em 2020, a HQeria publicou aqui o álbum "Blueberry: Amargura Apache", de Christophe Blain e Joann Sfar. Não é fácil de comprar, mas algumas livrarias ainda têm.

Duro mesmo é encontrar a versão para o cinema do tenente, rodada por Jan Kounen em 2004, com Vincent Cassel no papel central, tendo Ernest Borgnine (1917-2012), Juliette Lewis e Michael Madsen (1957-2025) no elenco.