Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Marcelo Quintanilha: 'Encontrar o mais profundo de si é também encontrar o Brasil'

Marcelo Quintanilha, quadrinista | Foto: Luciana de Oliveira /Divulgacão

Nos EUA de 2026, a saga "Absolute Batman" (já lançada entre nós, pela Panini) é o título que mais rende fortunas para as artes gráficas, mas, na Europa, onde HQ é BD (banda desenhada), o quadrinho mais festejado do momento, recém-chegado às livrarias e às lojas especializadas, tem alma brasileira: "Eldorado", de Marcello Quintanilha. O Frank Miller de Niterói tem hoje 54 anos e vive fora do Brasil desde 2002, adotando Barcelona como lar. Seus títulos saem em francês, quase sempre, antes de ganharem edição por aqui. É a editora Le Lombard que lançou seu novo álbum, na última sexta-feira, e ele já virou coqueluche. Crítica e público babam, em uníssono, pelas inquietudes de traço neorrealista do roteirista e ilustrador laureado com o troféu Jabuti por "Hinário Nacional" e por "Escuta, Formosa Márcia" - título ganhador ainda do troféu Fauve d'Or no Festival de Angôuleme, na França.

A trama de "Eldorado" revive o Brasil dos anos 1950, assumindo Duque de Caixas como arena. Ali, Hélcio e sua família vivem modestamente, mas com dignidade, graças à mercearia que têm. Mas ele e seu irmão Luiz Alberto sonham com um destino melhor. Luiz Alberto passa o tempo com a turma do bairro. Da pequena delinquência ao crime, há apenas um passo que o rapaz não hesita em dar. Hélcio, por sua vez, almeja a realização definitiva, uma carreira de jogador de futebol profissional. O Fluminense é um dos times que ganham tradução ilustrada nesse épico sociológico de Quintanilha, inspirado livremente na vida de seu pai e perfumado com essências do thriller. Na entrevista a seguir, o bamba das HQs, famoso também no cinema pela adaptação de seu cultuado "Tungstênio", disseca que país ele desenha em "Eldorado".

Como é que você avalia a reflexão sobre paternidade do teu "Eldorado"? De que modo os arquétipos de pai são discutidos ali?

Marcello Quintanilha - A figura do pai está na centralidade da história. A presença paterna é encarnada no arquétipo do pai austero, ríspido, de pouca instrução formal, dignificado pelo esforço do trabalho, dono de um estrito senso de justiça e moral inquebrantável. Assim como os demais personagens, também o pai almeja um eldorado particular, essa coisa por vezes indefinível, frequentemente inalcançável, que nos faz seguir adiante, buscando incessantemente. No caso de Alício, pai de Hélcio, este eldorado se traduz no desejo de proteger sua família, mantê-la unida, do mesmo modo que transmitir a seus filhos os valores que ele considera pertinentes.

Qual é o maior desafio de desenhar o futebol e dar a ele realismo nas páginas?

O fotojornalismo sempre foi uma das minhas maiores influências — ou referências, se você prefere. A captura de um instante preciso, sem nenhuma preparação, na qual a figura humana se mostra sem nenhum traço de intencionalidade, muitas vezes afirmando uma plasticidade que parece antagônica à ação que está sendo realizada, sempre me fascinou. Me lembro que no final dos anos 1970 e começo dos 80, passava horas e horas folheando as páginas dos jornais que traziam impressas as fotos dos jogos de futebol da rodada do dia anterior, nas quais os jogadores executavam poses inimagináveis, por vezes esdrúxulas, por vezes bizarras, por vezes dóceis e cândidas, por mais que se levasse em conta a violência com que chutavam a esfera de couro. Foi meu aprendizado de anatomia. Isto marcou não somente meu entendimento do que poderia ser a representação anatômica da figura humana e do movimento em sua integralidade, mas também abriu as portas para a tradução gráfica do esporte.

De todos os teus quadrinhos, "Eldorado" é o que mais me reforça a ideia de inventário de solidões que percorre a tua obra gráfica. O que essa solidão revela sobre o Brasil?

O Brasil expresso nas minhas histórias é o Brasil que me formou como pessoa. Nossa condição de indivíduos é atravessada pelas idiossincrasias que caracterizam o país. Todas as minhas histórias representam um encontro com aquilo que de mais profundo existe na minha percepção de mundo e ela está intrinsecamente ligada à cultura brasileira. Se entendemos como "inventário de solidões" o somatório de diferentes visões de mundo — expressas pelos personagens — perpassadas pelas dinâmicas que definem sua individualidade — marcadas pela cultura brasileira —, então podemos dizer que encontrar o mais profundo de si é também encontrar o Brasil.

 

Macaque in the trees
O traço neorrealista de Marcelo Quintanilha conquistou o mercado europeu | Foto: Reprodução