Por: Rodrigo Fonseca - Especial para o Correio da Manhã

Marcatti: 'A estupidez humana é tão antiga quanto nossa própria espécie'

Marcatti, quadrinista | Foto: Divulgação

Gerações de leitores da HQ nacional perderam o caba... perdão... o caminho, na rota da moral e dos bons costumes da tradicional família brasileira, lendo as peripécias regadas a sêmen, pus, urina e suco gástrico dos heróis de Francisco de Assis Marcatti Jr. Ele é o papa da escatologia nas artes gráficas nacionais. Há 49 anos, o quadrinista paulistano lá do Tatuapé (que mora na mesma casa onde nasceu, desde 16 de junho de 1962) desenha prazeres (os mais solitários, o prazer a dois, as manhas a três, e, escancarando de vez, passa ao grupal) em historietas onde a gargalhada jorra mais do que a sacanagem. Na virada do ano, o Correio da Manhã deu um pulo no site oficial do autor de "Coprólitos" e "Mariposa" - https://www.marcattihq.com.br/ - a fim de checar a sua produtividade mais recente e encontrou um mundaréu de pérolas, a precinhos bem camaradas. No papo a seguir, Marcatti delineia suas boas novas para 2026 e analisa um mercado onde se fez um titã à força de sua independência.

O que você planeja de novidades de HQs para 2026 e como tem sido o trabalho de manter sua linha de títulos na independência radical?

Marcatti - Para 2026, já estão programados três lançamentos inéditos: a edição 42 de Frauzio, com o título "Galinha Preta"; "Hansel & Gretel", o segundo álbum da série de adaptações de contos dos Irmãos Grimm; e, finalmente, a publicação de "Inês e Pedro". Tenho ainda dois projetos, também inéditos, para publicar até o fim do ano. Essa quantidade de títulos em um único ano só é possível ser publicada de forma independente. Nenhuma editora, em sã consciência, toparia lançar tanta merda do mesmo autor nesse período de tempo.

Como você avalia o quadrinho que se faz hoje no Brasil e quem te impressiona?

A falência das grandes corporações editoriais, junto com a forma predatória e estupidificante de atuar, abriu as portas para a criação autoral, autêntica e regional na linguagem dos quadrinhos. Fico feliz em estar testemunhando a explosão do nosso quadrinho na sua forma natural e com a melhor característica da cultura brasileira: a diversidade com universalidade. A lista dos trabalhos que me impressionam é enorme e eu não gostaria de limitá-la à minha memória de curto prazo.

Qual foi o quadrinho que te fez amar os quadrinhos e qual foi o momento em que você decidiu se lançar nessa arte?

O primeiro quadrinho a me tirar do chão foi "Astérix na Córsega". Para quem cresceu comendo pastel de feira (Disney e Turma da Monica), Astérix surgiu como uma farta ceia de final de ano. Mas decidi fazer meus próprios quadrinhos quando vi "Freak Brothers". O traço e o humor do Gilberto Shelton "estragaram" meu futuro.

As patrulhas de censura de hoje te brecam de alguma forma? Como criar livremente?

Cresci e amadureci durante a ditadura militar, e isso não me impediu de fazer minhas merdas. Às margens de completar meio século de profissão, continuo fazendo meu trabalho com o mesmo ímpeto e o mesmo apetite de sempre. Não vou desviar minha atenção e perder meu tempo escolhendo qual tipo de patrulhamento é pior. Ambos são idiotas, inócuos e permanentes. A estupidez humana é tão antiga quanto nossa própria espécie. A burrice se renova sistematicamente. O contraponto é imprescindível.

Quando você começou a fazer quadrinhos e que formação teve em desenho?

Publiquei pela primeira vez em agosto de 1977, na revista "Papagaio" nº 1. Se tivesse estudado desenho, meus bonecos não seriam tão tortos. Formei-me em Técnico em Artes Gráficas, no Senai Theobaldo de Nigris, em 1980. Publiquei pouco mais de 120 títulos. Não sei o número exato.