Música

Capoeira, memória e resistência

'Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais' reúne mais de 50 artistas e jovens quilombolas do Maranhão em apresentação gratuita no Teatro Carlos Gomes

Capoeira, memória e resistência
O espetáculo conduz o público por uma experiência sensorial em que música, dança, teatro e capoeira dialogam para contar a história de resistência do povo negro. Crédito: Eduarda Estrela/Divulgação

Uma roda de capoeira pode guardar muito mais do que o jogo entre dois corpos. Nela cabem música, religiosidade, memória, celebração e uma história de resistência transmitida entre gerações. É essa dimensão da Capoeira Angola que "Gungas, Marimbas e Urucungos em Encantorias Ancestrais" leva ao palco do Teatro Carlos Gomes nesta quarta-feira (9), às 19h30, com entrada gratuita.

A apresentação encerra no Rio uma turnê que passou por Parnaíba (PI), São Luís e Itapecuru-Mirim (MA) e Belém. Mais de 50 artistas, entre capoeiristas, músicos, atores e bailarinos, participam da montagem, que tem como protagonistas jovens de comunidades quilombolas maranhenses.

Eles vêm de Vila da Fé em Deus, em Santa Rita, e de Santa Luzia, Santa Joana, Santa Rosa e Oiteiro dos Nogueiras, em Itapecuru-Mirim. No palco, compartilham experiências que aproximam a Capoeira Angola de manifestações como tambor de crioula, bumba meu boi e samba.

Dividido em oito atos, o espetáculo utiliza música, dança, teatro e capoeira para percorrer aspectos da trajetória e da resistência da população negra. A Orquestra de Berimbaus ocupa posição central nessa construção, acompanhada por tambores e pandeirão. Mais do que elemento musical, o berimbau funciona como condutor de uma narrativa em que ancestralidade e experiência contemporânea caminham juntas.

A montagem é resultado do trabalho do Centro Cultural e Educacional Mandingueiros do Amanhã, instituição criada há 29 anos em São Luís e que, na última década, ampliou sua atuação para comunidades quilombolas. Oficinas de capoeira, música e dança passaram a aproximar crianças e jovens de manifestações culturais afro-brasileiras.

Fundador da instituição e diretor artístico do espetáculo, Mestre Bamba vê a chegada desses jovens aos palcos de diferentes estados como resultado de um projeto iniciado ainda em 1997. "A felicidade é enorme por ver esses jovens sendo protagonistas, não apenas apreciando a cultura, mas sendo verdadeiros fazedores de cultura. Levar a Capoeira Angola e a cultura do Maranhão para outros estados é a realização de um sonho que cultivamos desde 1997", afirma.

É justamente na passagem da condição de aprendiz para a de protagonista que a turnê ganha outro significado. A cultura transmitida dentro das comunidades passa a circular pelo país pelas mãos — e pelos corpos — de uma geração que também encontra nela possibilidades de transformação pessoal.

Josielma da Conceição Rodrigues, de 21 anos, é um desses exemplos. Moradora do Quilombo Santa Joana, em Itapecuru-Mirim, ela associa diretamente a capoeira às mudanças em sua trajetória. "A turnê abre novos caminhos para nós, jovens quilombolas, valorizando nossa cultura e nossas raízes. Foi a capoeira que transformou a minha vida e me motivou a conquistar oportunidades, como entrar na Universidade Federal do Maranhão", conta.

SERVIÇO

GUNGAS, MARIMBAS E URUGUNGOS EM ENCANTORIAS ANCESTRAIS

Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes s/n° - Centro)

9/9, às 19h30

Grátis, com reserva de ingressos no portal Sympla