Sergio Santos chega aos 70 anos com uma celebração digna de sua interessantíssima discografria: um álbum inteiramente dedicado ao samba, com algo mais. "Todo Samba", que chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (15) pela Biscoito Fino, reúne 13 canções inéditas e traz colaborações que comprovam que ter parceiros de qualidade é um dom deste compositor, violonista, cantor e arranjador mineiro. Este repórter, que admira o artista desde o irretocável "Áfrico" (2004), um manifesto vivo desta riqueza que é a afrobrasilidade, ouviu o novo álbum e é testemunha de seu imenso valor para a canção popular.
O trabalho nasce com fina conversa musical entre Santos e o clarinetista, compositor e arranjador Nailor Proveta em todo o álbum. Proveta, mestre reconhecido na linguagem do samba e do choro costura cada faixa com o que Santos definiu como o "veludo inconfundível de seu clarinete", improvisando com gosto por todo o trabalho.
Mas há mais. Paulo César Pinheiro, o oarceiro mais frequente de Santos, preserva essa condição. A dupla já compôs mais de 300 canções numa cumplicidade de décadas. Em "Todo Samba", essa sinergia aparece em composições como "Trate Bem Seu Bem", "Inquietude", Retato do Rio", "Ordem do Rei" e a faixa-título.
A participação de Francis Hime, compositor e arranjador de sofisticação rara, aparece em "Serenadas Pedras", onde divide a autoria da melodia com Sergio. Hime, que também assina arranjos no disco, traz a sua refinada linguagem harmônica para o projeto. Sua presença, junto com a de sua esposa Olivia Hime — que assina a letra da faixa e a interpreta com sua conhecida sensibilidade.
Outras vozes femininas ganham destaque especial no álbum. Leila Pinheiro, "magnífica" segundo as palavras do próprio Sergio, divide vocais em "Inquietude". Maíra Manga, jovem cantora mineira talentosíssima, participa de "Trate Bem Seu Bem". "A presença feminina surgiu naturalmente, e creio que pode ter acontecido pelo quanto eu admiro essas vozes. A sensibilidade feminina sempre me chamou muito a atenção, e é curioso que no disco surjam de forma tão marcante as vozes de diferentes gerações, com personalidades artísticas tão definidas."
Mas a novidade mais surpreendente vem de fora do Brasil. A Tallinn Studio Orchestra, orquestra de 24 músicos da Estônia, participa em quatro faixas do álbum. A partir de arranjos de Sergio Santos, os músicos estonianos foram apresentados ao samba, ampliando a sonoridade do projeto além do formato intimista de voz, violão e clarinete.
Há também a estreia de uma parceria: Santos trabalha pela primeira vez com o escritor e poeta Marcílio Godói, que assina letras no disco.
O álbum reflete uma filosofia que Sergio articula com clareza: o samba é "matriz" da música brasileira, mas não é um "riacho estreito" — é um "rio imenso e navegável, repleto de afluentes e bifurcações". Cada canção em "Todo Samba" foi construída a seu modo, evitando jargões melódicos.
"Todo Samba" é, portanto, um retrato de como um compositor trabalha em seu melhor: cercado de gente que o entende, que o desafia, que o complementa.