Correio da Manhã
Música

Quando o manguebeat expandiu sua força

Nação Zumbi celebra no Circo Voador os 30 anos de 'Afrociberdelia', o último álbum da banda com o genial Chico Science

Quando o manguebeat expandiu sua força
A Nação Zumbi segue honrando o legado de Chico Science, voz e rosto do movimento manguebeat nos 30 anos de 'Afrociberdeia' Crédito: André Almeida/Divulgação

Nação Zumbi celebra no Circo Voador os 30 anos de 'Afrociberdelia', o último álbum da banda com o genial Chico Science

A Nação Zumbi sobe ao palco onde fez e faz história para celebrar três décadas de "Afrociberdelia". Nesta sexta e sábado (8 e 9), a banda recifense apresenta o álbum na íntegra. O multi-instrumentista argentino Mintcho Garrammone faz o show de abertura na sexta e BNegão no sábado. Os ingressos para as duas noites estão esgotados.

Segundo álbum de estúdio da Nação, "Afrociberdelia" nasceu em 1996 com uma responsabilidade gigantesca que era dar sequência a "Da Lama ao Caos" (1994), disco que deu rosto e voz ao movimento manguebeat. Produzido pelo paulistano Eduardo Bidlovski, o Bid, o disco foi o último gravado com Chico Science, que faleceria um ano depois, em 1997, aos 30 anos, em trágico acidente automobilístico. E "Afrociberdelia" respondeu ao desafio com maestria.

O álbum de 23 faixas representa uma evolução sonora em relação ao trabalho anterior. Se "Da Lama ao Caos" estabelecia as bases do manguebeat, "Afrociberdelia" era sua expansão. Apostando em diferentes sonoridades com mais tecnologia, psicodelia e batidas de hip-hop, o disco incorpora influências muito além das tradições nordestinas — ainda que estas nunca fossem abandonadas. É a batida do maracatu e a drum machine, o ritmo ancestral e a experimentação eletrônica, tudo no mesmo tempo e espaço.

Macaque in the trees
Chico Science (ao centro) e a Nação Zumbi em imagem de 1996 | Foto: Divulgação

Faixas como "Manguetown", "Macô" e a versão de "Maracatu Atômico" — lançada como single em junho de 1996 — figuram no repertório do álbum e jamais saíram dos setlists da banda em suas apresentações ao vivo. "Manguetown" é uma crônica da lama, do bairro sujo onde "os urubus têm casas", uma metáfora que captura a realidade periférica de Recife. "Maracatu Atômico", originalmente composta por Jorge Mautner e Nelson Jacobina, ganhou novas dimensões na interpretação de Chico Science e Nação Zumbi, com versões que incluíam remixes em ragga e trip-hop — é o manguebeat que conversa com o mundo sem tirar os pés da lama.

"Na verdade, o tempo não chegou nesse disco ainda não. 'Afrociberdelia' é um disco bem à frente do seu tempo. Se prestar atenção e ouvir ele na íntegra, vai descobrir. Inclusive, percebe-se que o Curupira já tem seu tênis importado, não conseguimos acompanhar o motor da história, mas somos batizados pelo batuque e apreciamos a bicultura celeste, como já disse Chico Science", avisa o vocalista Jorge Du Peixe, ao falar para o Correio da Manhã sobre a permanência do álbum.

No palco, Du Peixe, Dengue (baixo), Toca Ogan (percussão), Marcos Matias e Da Lua (tambores), Tom Rocha (bateria) e Neilton Carvalho (guitarra) executam essa obra-prima na íntegra, além de outras pedradas do repertório. É uma formação que carrega a responsabilidade histórica de manter viva a chama de um movimento que, embora tenha surgido em um contexto específico, continua reverberando na música brasileira.

Macaque in the trees
Capa de Afrociberdelia | Foto: Divulgação

A noite de sexta-feira no Circo começa com a apresentação de Mintcho Garrammone, conhecido como o argentino da guitarra baiana. O músico já colaborou com grandes nomes da música brasileira, como BaianaSystem — na faixa "Lucro" — e é responsável por misturas absolutamente excelentes de cumbia e ritmos brasileiros.

No sábado, BNegão apresenta seu novo show solo, "Metamorfoses Riddims e Afins", em que leva sua mutação sonora a outro patamar dançante. Acompanhado por Pedro Selector (trompete e voz), DJ Castro (pickups e eletrônica), Gilber T (guitarra, bases, efeitos e voz), Sandro Lustosa (percussões e efeitos) e Paulão King (vocal gutural), BNegão manda versões de clássicos como "Essa É Pra Tocar no (Heavy) Baile" e "A Verdadeira Dança do Patinho (Inna SSA Styla)", somadas a músicas que fazem parte fundamental de seu DNA sonoro. O repertório inclui o samba-reggae "O Sósia" dos paulistas Moleque de Rua, "Cérebros Atômicos" dos Ratos de Porão e a curimba eletrônica "Sorriso Aberto" — uma mistura que reflete a pluralidade sonora que o manguebeat sempre defendeu.

A comemoração dos 30 anos de "Afrociberdelia" é tão relevante quer os ingressos para as duas noites se esgotaram há mais de um mês. Mesmo sem seu maior pensador, a Nação Zumbi segue na trincheira da resistência contra as desigualdades brasileiras, misturando tradição e modernidade sem macular o DNA nordestino.

SERVIÇO

NAÇÃO ZUMBI — AFROCIBERDELIA 30 ANOS

Circo Voador (Rua dos Arcos s/nº - Lapa) 8 e 9/5, às 22h

Ingressos esgotados