Por: Affonso Nunes

Gal e um violão. Para que mais?

Gal Costa e Luiz Meira, guitarrista da sua banda por 19 anos, no show que a dupla realizou dentro do projeto 'Vozes do Brasil' | Foto: Acervo pessoal Luiz Meira

Versão intimista de 'Mulher Eu Sei', de Chico César, antecipa lançamento do aguardado álbum ao vivo póstumo da cantora

Nunca é demais ter saudades de Gal Costa (1945-2022). Um dos lançamentos musicais mais aguardados do ano, o álbum "Gal Costa - Ao Vivo no Teatro Castro Alves" terá mais um single revelado nesta sexta-feira (8). Trata-se de uma releitura de "Mulher Eu Sei". O registro permanecia inédito comercialmente e foi captado em 22 de maio de 2003, durante apresentação de Gal no projeto "Vozes do Brasil", em Salvador. O processo de revelação das canções do álbum teve início no último dia 17, quando foi lançado um single triplo contendo "Eu Vim da Bahia" (Gilberto Gil), "Azul" (Djavan) e "Força Estranha" (Caetano Veloso).

Maria da Graça Costa Penna Burgos, ou seimplesmente Gal, se tornou uma das vozes mais relevantes da música popular brasileira. Sua carreira começou na década de 1960, quando a música brasileira vivia um momento de efervescência criativa. Gal iniciou seus estudos musicais cedo e rapidamente se inseriu no circuito artístico pelo qual transitavam Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé — encontro que a levaria a ser um dos expoentes do movimento tropicalista. Participou do álbum "Domingo" (1967) ao lado de Caetano, e lançou seu primeiro disco solo em 1969. Na contramão de muitos intérpretes de sua geração, Gal não se prendia a gêneros ou estilos musicais. Com sua voz potente e versátil, cantou bossa nova, samba, rock, música nordestina e blues, sempre com uma capacidade singular de reinventar as canções que interpretava. A Rolling Stone a descreveu como "a vocalista feminina mais transcendente da era pós-bossa".

Nos anos 1970 e 1980, conheceu o topo da MPB. Gravou dezenas de discos, participou de trilhas sonoras de filmes e novelas, e conquistou uma base de fãs do tamanbho do Brasil. Escolhia criteriosamente seu repertório, recorria a compositores da grandeza de Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Caetano Veloso, Chico Buarque e Ary Barroso. Mas, generosa, Gal também se abria para artistas contemporâneos e novos compositores.

Interação com público

Neste show de 2003, acompanhada apenas pelo violão de Luiz Meira, Gal apresentou um espetáculo acústico que mesclava clássicos da música brasileira com canções de compositores como Chico César (autor de "Mulher Eu Sei"), Vander Lee, Arnaldo Antunes e Alice Ruiz. A voz cristalina de Gal brilhava em sintonia com o violonista. O registro captou também a interação com a plateia, como na saudação inicial no início do shou e no momento divertidíssimo em que a cantora coloca a parte masculina da plateia para cantar o refrão de "Mulher Eu Sei" ("Eu sei como pisar no coração de uma mulher / Já fui mulher, eu sei / Já fui mulher, eu sei").

Caetano é o compositor da maioria das canções do repertório daquele show, entre elas "Tigresa", "London London", "Minha Voz, Minha Vida" e "Coraçãozinho". Clássicos como "Camisa Amarela" (Ary Barroso), "Chega de Saudade" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes), "Vapor Barato" (Jards Macalé e Waly Salomão) e "Olha" (Roberto Carlos e Erasmo Carlos) também ganharam versões acústicas para o projeto, que passou por várias cidades.

Após duas décadas de preservação, o registro passou por tratamento técnico capitaneado pelo produtor musical Marco Mazzola. O lançamento é fruto da parceria das gravadoras MZA Music e Biscoito Fino, e representa mais uma iniciativa de curadoria e preservação do acervo de Gal Costa. O álbum completo chega às plataformas digitais no fim do mês.