Por: Affonso Nunes

Antídoto contra a intolerância

Majur evoca a ancestralidade no show 'Gira Mundo', que reúne quatro bailarinos e forte presença percussiva para mostrar canções na língua sagrada do candomblé | Foto: Marcela Guimarães/Divulgação

Majur apresenta o álbum 'Gira Mundo' no Vivo Rio encerrando trilogia que celebra ancestralidade com 16 faixas em iorubá

Majur chega ao Vivo Rio neste sábado (25) de abril, às 21h, com o espetáculo "Gira Mundo", fechando um ciclo de três anos que redefiniu sua posição na cena musical brasileiro. O álbum, lançado em maio de 2025, é composto por 16 faixas cantadas majoritariamente em iorubá, a língua sagrada do candomblé. A artista trans baiana descreve o projeto como "um ato de desmitificação da cultura afro-brasileira através da arte".

Majur pavimentou sua carreira a partir de enfrentamentos sucessivos. Começou aos cinco anos em um projeto social em Salvador, participando do coral da Orquestra Sinfônica da Juventude. Antes de se consolidar como cantora, trabalhou como atendente de telemarketing durante o dia, assumindo sua verdadeira identidade à noite em bares de Salvador. O reconhecimento veio em 2019, quando participou da faixa "AmarElo" com Emicida e Pabllo Vittar, após apresentar-se em uma festa de Caetano Veloso no início daquele ano. Desde então, trafegou pelo pop urbano, incorporando sonoridades mais sofisticadas, e sempre mantendo sua postura de resistência como mulher negra trans num mercado geralmente hostil à diversidade.

"Gira Mundo" representa o terceiro ato dessa trajetória, após os elogiados "Ojunifé" (2021) e "Arrisca" (2023). Em entrevistas, Majur conta que o álbum nasceu de uma reflexão profunda sobre a diáspora africana no Brasil. "Voltar aos navios negreiros é resgatar a cultura africana no Brasil colonial. É entender com profundidade essa diáspora tão presente e, ao mesmo tempo, tão silenciada", declarou em entrevista à Novabrasil FM.

Para a cantora, o candomblé surgiu como ato de resistência em um país que não aceitava outras culturas e crenças, e seu novo trabalho busca retornar esse contexto histórico. "O álbum confronta a intolerância religiosa e o racismo no Brasil, mas é, sobretudo, um gesto de reconhecimento das origens e um chamado para a reconciliação da cultura brasileira com suas raízes africanas", destaca. "Não escolhi lutar, eu preciso lutar para existir".

Majur revela que decidiu cantar em iorubá para demarcar espaço em um país onde a fé de matriz africana segue sob pressão. Cada canção é dedicada aos orixás, transformando o disco em um ritual sonoro. Para garantir acessibilidade, utilizou arranjos de afropop, pianos fluidos e percussões ricas, permitindo que o ouvinte sinta a intenção emocional mesmo sem compreender a língua.

O espetáculo expande a experiência do álbum através de outras linguagens artísticas. Majur revitalizou sua apresentação com a reintrodução do balé: quatro bailarinos interpretam o que a cantora chama de "danças silvestres", coreografias inspiradas em fundamentos africanos que buscam expressar a força do corpo negro em movimento. As coregrafias são inteiramente assinadas por mulheres.

A direção musical fica sob responsabilidade de Ícaro Sá, também produtor do álbum. A banda conta com três atabaques, percussão, teclado e dois backing vocals, uma formação que reforça a espinha ritmica e espiritual do projeto. No teclado está Ícaro Santiago, colaborador ne Majur no processo de criação musical do álbum.

O show é concebido como experiência ritualística, onde luz, figurinos e energia coletiva criam um espaço de encontro entre música, dança e espiritualidade. "Existe algo maior", repete a cantora, que destaca está ansiosa em estrear o espatéculo no Rio. "Estava esperando por esse encontro. O Rio é uma cidade que me acolhe há muito tempo. Estou ansiosa para mostrar minha arte e muito feliz por apresentar 'Gira Mundo', após rodar diversas cidades pelo país."

A estrutura do show faz da ancestralidade mais que um grito de lamento. É um espetpaculo de celebração e resistência.

Servico

MAJUR - GIRA MUNDO

Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo) | 25/4, às 21h

Ingressos a partir de R$ 110 e R$ 55 (meia)