Affonso Nunes
Ninguém cantou e contou Copacana como ele. Aos 68 anos, Fausto Fawcett coloca em cena uma obra que abandona o formato tradicional de show e se propõe a uma experiência contínua de sua obra. O espetáculo "Animakina", que estreia nesta terça (21) no Sesc Copacabana, simboliza o que ele define como uma reorganização de uma vasta produção — da música à literatura — como um organismo vivo, atualizado e em fluxo permanente. "Reorganizar obras é um estudo constante e infinito, influenciado pela atualidade. Clássicos como músicas que atravessam a barreira do tempo absorvem tendências e funcionam como gatilho para refletir padrões de comportamento, emoção e movimentação social, farejando o futuro de forma hiperbólica. O 'Animakina' insere-se nisso como aperfeiçoamento, refinando observações sobre tecnologia, caos social, perspectivas apocalípticas e alerta geral (econômico, filosófico, religioso), capturando o animal humano encurralado, estimulado ou pervertido por máquinas e espiritualidades fetichistas - tom da vida atual, especialmente no Brasil!, explica Fawcett em conversa com a reportagem.
Copacabana, é claro, está no epicentro deste turbilhão criativo. "Copacabana continua sendo uma vitrine de tendências sociais e demográficas no Rio e no Brasil. Hoje é um bairro de maioria idosa em meio a jovens precarizados, mantendo assim sua heterogeneidade e eletricidade social. A camelotagem e a boemia de rua sucumbiram neste mundo digital e hoje temos um fluxo turístico contante, um estado de semi-réveillon e uma sequênciua de grandes eventos. Copacabana segue servindo como fonte de observação e inspiração", diz Fawcett à reportagem.
O multiartista ajudou a transformar o bairro em ficção ampliada ao longo de quatro décadas. Canções como "Rio 40 Graus" e "Juliette" servem de âncoras para uma narrativa que atravessa camadas distintas de sua obra: desde o universo inaugural do álbum "Robôs Efêmeros" (1987), passando pelo tórrido "Império dos Sentidos" (1989), as tensões de "Básico Instinto" (1993), até a distopia contemporânea de "Favelost" (2024). Essa reorganização revela conexões nem sempre óbvias entre textos, sons e imagens criadas por Fawcett nas últimas quatro décadas.
Na arena circular do Sesc Copacabana, o público rodeia a cena na qual Fawcett emerge cercado por monitores verticais que operam em tempo real. A direção visual assinada por Jodele Larcher opera em conjunto com uma arquitetura sonora em 5.1, criando ambiências que chegam ao espectador num formato assemelhado a um cinema expandido. É nesta atmosfera que imagem e música deixam de ilustrar uma à outra, criando linguagem própria. Ele, no entanto, admite existir uma pequena hierarquia nessas pistas artísticas. "O fator literário é o fósforo que risca a pólvora toda, mas o principal é a convergência de linguagens - essa mistura de literatura, audiovisual, música e artes plásticas, como amálgama e alquimia que aguçam, mexem e perturbam as placas mentais, sensoriais e sociológicas internalizadas", defende. "Essas colagens/montagens lidam com avalanches de informações num mundo de oito bilhões de pessoas", completa.
No núcleo criativo, Fawcett trabalha com parceiros que compartilham sua estética híbrida: Paulo Beto na direção musical, guitarras e camadas eletrônicas; Mari Crestani no baixo, sax e voz. Juntos, constroem uma narrativa onde clássicos como "Kátia Flávia - A Godiva do Irajá" (1987), que ganhou a célebre versão de Fernanda Abreu revela-se absurdamente atual.
Jornalista de formação, fawcett publicou cinco livros, lançou com Chelpa Ferro o álbum "Pesadelo Ambicioso" (2026), que reúne poesia falada, colagens sonoras e experimentação. Sua trajetória no teatro inclui peças como "Olhos Ardentes" (1985) e "Amizade de Rua" (1986), ambas com Hamilton Vaz Pereira, além de "Cidade Vampira" (2005), sobre o caso Suzanne Richthoffen, e "Salomé by Fausto Fawcett" (2016).
SERVIÇO
FAUSTO FAWCETT - ANIMAKINA
Arena do Sesc Copacabana (Rua Domingos Ferreira, 160)
21/4, às 19h
Ingressos: R$ 15, R$ 7,50 (meia) e R$ 5 (meia)