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Claire Denis para além das cercas

Rodrigo Fonseca

Especial para o Correio da Manhã

Numa interseção da metafísica com a sociologia, estruturada sob cadáveres do colonialismo, "A Cerca" ("Cri des Gardes"), que põe a septuagenária artesã a autoral francesa Claire Denis para rodar o mundo desde setembro, aporta em terras (e telas) sul-americanas nesta segunda-feira, no BAFICI, o Festival de Buenos Aires. A passagem por terras argentinas dessa alegoria extraída do repertório teatral do dramaturgo Bernard-Marie Koltès (1948-1989) coincide com o anúncio de que a cineasta será homenageada pela mais prestigiada mostra de cinema da Terra: Cannes. No dia 13 de maio, na Croisette, ela receberá o troféu honorário Carroça de Ouro, na abertura da Quinzena de Cineastas. Paralelamente, entre nós, aqui no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro (CCBB-RJ), nesta quarta-feira (dia 22), às 17h30, Claire ganha vitrine no evento Mestras do Macabro - As Cineastas do Horror ao Redor do Mundo (em cartaz até 18 de maio).

Sua curadoria, Beatriz Saldanha, arranjou espaço para uma pérola da realizadora que não teve vaga em nosso circuito à sua época: "Vida Celeste" ("High Life"), ganhador do Prêmio da Crítica no Festival de San Sebastián, em 2018. "Não penso um filme como trama, penso nele como experiência e experiências envolvem conexões territoriais, relações com espaços. O meu ponto de vista é o de uma francesa, mas é um ponto de vista que foi edificado observando expropriações culturais", diz Claire ao Correio da Manhã.

O papo se deu em San Sebastián, onde ela presidiu o júri em 2023 e onde concorreu à Concha de Ouro do ano passado, com "A Cerca", que conta com seu colaborador de longa data Isaach de Bankolé, ator da Costa do Marfim com quem fez "Chocolate" (1998).

"Foi Isaach quem me apresentou ao Bernard-Marie Koltès, ainda nos anos 1980, ao leva-lo ao set. Quando li a peça dele, 'Combat de Nègre et de Chiens' (escrita em 1979 e encenada em 1982 pela primeira vez), fiquei interessada pela forma como ela trazia uma perspetiva africana sobre os laços familiares. Ao adaptá-la para as telas, alterei certos elementos que estavam demasiado presos a uma lógica da década de 1980", explica a cineasta, que, aos 79 anos, passa a integrar um time seletíssimo de medalhões ao ser coroada com a Carroça de Ouro de Cannes.

A láurea foi criada em 2002, como um estímulo à liberdade na criação, e já foi confiada a um rol de transgressores: Jacques Rozier, Clint Eastwood, Nanni Moretti, Ousmane Sembène, David Cronenberg, Jim Jarmusch, Naomi Kawase, Agnès Varda, Jafar Panahi, Jane Campion, Jia Zhangke, Martin Scorsese, John Carpenter, Souleymane Cissé, Andrea Arnold, Todd Haynes e o documentarista Frederick Wiseman. Claire tem no currículo outras láureas de peso. Cultuada por "Nenette e Boni" (ganhador do Leopardo de Ouro no Festival de Locarno, em 1996) e "Bom Trabalho" (vencedor de menção especial na Berlinale de 2000), ela passou pelo Festival do Rio, presencialmente, em 2013, quando lançou "Les Salauds" ("Bastardos"), nas Américas. Em sua vinda, aproveitou também para reencontrar familiares que vivem no Brasil. A sua vida sempre foi de trânsito constante entre continentes, e o cinema que constrói — em títulos como "Stars at Noon", condecorado com o Grande Prêmio do Júri de Cannes em 2022 — é, de algum modo, "autogeográfico". Essa marca desenha "A Cerca" e "Vida Celeste".

"Eu não filmo heróis. Os personagens que abordo estão às voltas com o desejo e com a morte, ou seja, dois tabus. Não há heroísmo nos meus filmes, nem conquista. Há a percepção de nós mesmos", define-se Claire. "Busco falar sobre o ódio que brota no multiculturalismo sempre do lado de quem é pobre. Discutir o ódio é uma decisão consciente".

Seu espaço de ação em "A Cerca" são os barracões de uma obra numa zona rural da África Ocidental. Num canteiro de operários, Horn, o chefe da obra (papel de Matt Dillon), e Cal, um jovem engenheiro (Tom Blyth), dividem o alojamento atrás da porta dupla das instalações. A namorada de Horn, Léonie (Mia McKenna-Bruce), chega para se juntar a eles na noite em que um homem misterioso (Isaach de Bankolé, colaborador de longa data da cineasta) surge junto ao cercado. O seu nome é Alboury. Como um espectro na escuridão, qual um Exu, ele exige o corpo do irmão, morto nesse mesmo dia na obra. A sua presença assombra Cal e Hron ao longo da noite, até que lhe entreguem o cadáver, enquanto Léonie assiste ao desastre a crescer diante dos seus olhos. Há uma frase devastadora, ouvida quando a personagem de Mia abre sua mala e, ao olhar suas roupas, diz: "Preciso deixar sair o cheiro da Europa". O longa passa no BAFICI, às 13h desta tarde, no Cine Teatro Alvear, com mais uma projeção na quarta, 20h50, no Centro Cultural 25 de Mayo.

"Na encenação da peça, não se via o corpo do irmão de Alboury. Era apenas uma presença simbólica, fora de cena. Mia era diferente também. No filme, ela encarna de forma mais credível a cabeça de uma londrina em busca de um mundo novo. A frase dela é um choque de mundos… o velho e o novo. Alboury sublinha esse contraste, com sarcasmo, explica Claire.

Em "Vida Celeste", ela acompanha a jornada de um astronauta (Robert Pattinson, o atual Batman, em cartaz no Rio com "O Drama") e sua filha bebê em uma nave onde os passageiros morreram sob circunstâncias misteriosas, mas que podem estar ligadas aos experimentos de fertilização de uma médica (Juliette Binoche).

"Existe alguma coisa mais fascinante do que uma dimensão, como o espaço, da qual pouco conhecemos, ainda, e a qual não podemos alcançar quando queremos?", pergunta Claire. "Leio ficção científica desde garota. Isaac Asimov ia comigo para a escola: "Eu, robô" e seus outros livros me fascinavam. Galileu é sci-fi. A questão não é o espaço sideral. É a condição humana".

No dia 14 de maio, às 18h, a mostra Mestras do Macabro traz ao Rio, via CCBB, o vencedor do BAFICI 2025: "O Lago da Perdição" ("La Virgen De La Tosquera"), de Laura Casabé. Num casamento preciso entre crítica social e dispositivos pop das cartilhas do terror, este thriller sobre o clamor do sexo na adolescência foi laureado com o Grande Prêmio da competição nacional do evento argentino. Na trama, Natalia, Mariela e Josefina são amigas inseparáveis, loucamente apaixonadas por Diego, um amigo de infância. No conturbado verão de 2001, em meio a crises econômicas em terras portenhas (e seus arredores), Silvia, uma moça já adulta, junta-se ao grupo e cativa o rapaz. Desolada, Natalia põe em prática heranças místicas de sua avó, envolvendo feitiços... e cães ferozes. O realizador Benjamín Naishtat (de "Vermelho Sol" e "Puan") colaborou com Laura e escreveu o roteiro.

O BAFICI 2026 encerra suas atividades no próximo domingo, tendo duas produções brasileiras em sua seleção competitiva internacional: o curta "Banho Maria", de Gabriel Faccini, e o longa "Nosso Segredo", que a atriz e dramaturga Grace Passô projetou antes, na Berlinale. O filme dela, a ser exibido nesta terça, às 18h35, no Cine Teatro Alvear, acompanha a dor de uma família diante de vivências variadas do racismo. Faccini, por sua vez, foca numa manhã de calor escaldante, em que uma mulher falta ao trabalho. Sua narrativa foi exibida no sábado, na capital argentina.

Quem encerra o rol de estreias da maratona de Buenos Aires é "Power Ballad", de John Carney, com CEP na Irlanda e fôlego para bombar planeta adentro. Em seu roteiro, Rick (Paul Rudd), um ex-cantor de casamentos, conhece o falecido astro da boy band Danny (Nick Jonas) durante um show e os dois se unem profissionalmente. Mas quando Danny transforma uma das músicas de amigo fracassado no sucesso que reacende sua carreira, Rick se propõe a recuperar o reconhecimento que acredita que merece, mesmo arriscando tudo o que lhe importa.