Cantora que deu visibilidade à obra de Noel Rosa e outros bambas tem álbum histórico de 1966 relançado em vinil em projeto de memória da Universal Music Brasil
Quem via aquela jurada baixinha e com cara de poucos amigos espinafrando aspirantes a cantores no programa de calouros do Silvio Santos talvez não imaginasse que por trás daquela rabugice estava uma das intérpretes mais importantes do samba. Sim, Aracy de Almeida tinha moral para ser exigente com cada um daqueles candidtos, pois foi uma estrela de nossa canção popular.
E agora a estrela do rádio, morta em 1988, volta aos holofotes. A Universal Music Brasil acaba de relançar "Samba É Aracy de Almeida", álbum de 1966 que permanecia fora de circulação há décadas. Conhecida como "Samba em Pessoa" e "A Dama do Encantado", Aracy merecia estar de volta às prateleiras. Nascida em 1914 no Rio de Janeiro, ela foi a primeira grande cantora de samba do Brasil, responsável por manter viva a obra de Noel Rosa e por uma carreira que começou em 1934 e se estendeu por mais de cinco décadas.
O álbum que agora retorna foi capitaneado por Aloysio de Oliveira para seu lendário selo Elenco — o mesmo Aloysio que integrou o Bando da Lua entre os anos 1930 e 1950 e deixou sua marca nos arranjos e na seleção do repertório. O disco reúne dez sambas que resgatam pérolas da época de ouro de Aracy. Quatro deles ela teve a primazia de lançar: "Três Apitos" de Noel Rosa (gravado originalmente por ela em 1951, 14 anos após a morte do compositor), "Tem Pena de Mim" de Hervé Cordovil (também de 1951), "Triste Cuíca" de Noel e Cordovil (de 1935) e "Sabotagem no Morro" de Wilson Batista e Haroldo Lobo (registrada por ela em 1945). Esses nomes — Noel, Wilson, Haroldo — aparecem constantemente em sua discografia de 331 fonogramas, revelando a intimidade entre intérprete e compositores.
Das composições que Aracy nunca havia gravado, estavam dois sambas de Assis Valente lançados pelo Bando da Lua em 1935: "Cansado de Sambar" e "Mangueira". A presença desses títulos no álbum não é coincidência — Aloysio de Oliveira conhecia bem esse repertório e sua mão pesou na curadoria. Há ainda "Ora Ora" (de Almanir Grego e Gomes Filho, lançado pelo Bando da Lua em 1940) e duas composições de Ary Barroso: "É Mentira, Oi" (lançada por Silvio Caldas em 1932) e "Não Sou Manivela" (gravada originalmente por Diamantina Gomes em 1953). Fecha a seleção "Batucada Surgiu", dos irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle, compositores que despontavam naquela época com uma carreira que se provaria de imenso sucesso.
Musicalmente, o álbum é uma aula de arranjo e sensibilidade. Aracy foi acompanhada por Roberto Menescal no violão e Ugo Marotta no piano e órgão — ambos também responsáveis pelos arranjos. A seção rítmica incluía Alpheo Barroso Neto na bateria, Sergio Barroso no contrabaixo e mestre Marçal na percussão. Copinha toca flauta, Laerte Gomes de Alcântara divide o sax alto e clarinete, e há ainda o coro formado por Aloysio, Menescal, Ugo e Laerte. Esse time de músicos tarimbados tanto no samba quanto na bossa nova, conferiu ao trabalho uma qualidade perene.
A carreira de Aracy de Almeida é inseparável da história do samba. Começou aos 20 anos, em 1934, gravando marchinhas de Carnaval pela Colúmbia, acompanhada por Pixinguinha e sua orquestra. Naquele mesmo ano, conheceu Noel Rosa na Rádio Educadora. Ele reconheceu seu talento e a convidou para cantar suas composições — uma parceria que duraria décadas e que faria de Aracy a intérprete mais importante da obra de Noel. Ela gravou 165 discos de 78 rotações, quantidade impressionante que revela a intensidade de sua presença no mercado fonográfico brasileiro. A partir de 1968, Aracy ganhou fama adicional como jurada mal-humorada e espirituosa em programas de calouros de televisão, tornando-se figura conhecida de gerações que não necessariamente acompanhavam sua brilhante carreira musical.
"Samba É Aracy de Almeida" é um documento que captura Aracy em sua maturidade artística, em 1966, quando ela já havia consolidado seu lugar na história do samba, mas ainda tinha muito a oferecer. O álbum não é uma compilação de sucessos da cantora, mas um mapeamento preciso do do samba carioca entre oa décadas de 1930 e 1950, um trabalho que ajudou a recuperar a imagem do gênero após anos de ostracismo.
A memória e legado de Aracy merecem esta reedição, assim como o público merece direcionar olahres e ouvidos na direção desta cantora ímpar na música brasileira.