Affonso Nunes
Pierre Aderne volta a cruzar o Atlântico pela música. Desta vez, o projeto Rua Das Pretas lança "Povo Brasileiro", um álbum que parte de um texto do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) para investigar como se formou o Brasil — não por uma viés nostálgicoa, mas pelas fricções, rupturas e encontros forçados de raças que moldaram o país. Quase como um "Buena Vista Social Club" brasileiro, este achado musical reúne músicos de três continentes unidos pela língua portuguesa: brasileira, portuguesa e cabo-verdiana.
Gravado em junho de 2025 na Casa Darcy Ribeiro, em Maricá — a residência projetada por Oscar Niemeyer inspirada nas aldeias Tupinambá —, o álbum é uma obra de criação que entrelaça samba, samba de roda, ijexá, mornas, fados, capoeira e pontos de candomblé sem estabelecer hierarquias entre eles. As letras são de Pierre Aderne e as melodias de Moacyr Luz, com exceção de algumas composições que envolvem também Kiko Horta e Aldir Blanc. A direção musical e os arranjos ficam a cargo de Kiko, que assina a produção ao lado de Aderne.
As canções deste trabalho serão apresentadas ao vivo pela primeira vez em 12 de Maio, no L'ermitage, em Paris. No dia 24, Aderne e Rua das Pretas participarão do Festival Remexe Rio — Um Manifesto da Língua Portuguesa, na Praça XV.
O elenco que participou da gravação inclui a cantora cabo-verdiana Zulu, a fadista portuguesa Ana Margarida Prado, o multi-instrumentista Nilson Dourado, a flautista Letícia Malvares, Jurema De Candia e integrantes do Cordão do Boitatá — Paulino Dias, Quininho da Serrinha, Edu Neves, Aquiles, Everson Moraes, Bruno Aguilar e Tadeuzinho. Na seção de cordas, aparecem Luis Barcelos e Carlinhos 7 Cordas.
A questão que move o projeto é explicitamente política. Na visão de Darcy, o Brasil nasceu da violência, dos encontros forçados, da resistência e da recomposição. Aderne transpõe essa tensão para a música: em vez de "contar a história", ele dá voz às fricções — ao que o Atlântico esmagou e ao que ele criou. O título "Povo Brasileiro" relê simbolicamente as rotas atlânticas, uma "lavagem" das caravelas no seu regresso ao Rio, conduzida por músicos que compartilham a língua portuguesa em suas variações.
Rua Das Pretas funciona como um espaço cultural itinerante há 15 anos. Pierre Aderne aproximou a música do Brasil, Portugal e África através de turnês por salas portuguesas como Coliseu dos Recreios e Coliseu do Porto, além de apresentações pela Europa e Estados Unidos. O projeto acumula colaborações com artistas como Seu Jorge, António Zambujo, Melody Gardot, Tito Paris e Sara Tavares. Em 2012, Aderne realizou o longa "MPB - Música Portuguesa Brasileiro", seleção oficial do Festival do Rio e premiado no Douro Film Harvest.
O nome Rua Das Pretas remonta a Lisboa do século XVI: há 500 anos, mulheres negras carregavam água das fontes pelas ruas da cidade. A rua, fundada em 1567, tornou-se símbolo dessa circulação de pessoas e culturas. Quando Aderne se mudou para lá em 2011, sua casa virou ponto de encontro de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Carminho e José Eduardo Agualusa — um espaço onde a música brasileira, portuguesa e africana conversavam naturalmente.
"Povo Brasileiro" também ganha versão em curta-metragem e será apresentado em shows confirmados: 12 de maio em L'Ermitage, Paris, e 24 de maio na Praça XV durante o Festival Remexe Rio — Um Manifesto da Língua Portuguesa. O álbum está disponível em plataformas digitais.