Por: Affonso Nunes

A intimidade da bossa encontra a amplitude sonora de uma orquestra

Wanda Sá, Theo Bial e Roberto Menescal | Foto: Divulgação

Roberto Menescal e Orquestra Sinfônica Villa-Lobos apresentam clássicos bossanovistas em releituras orquestrais em concerto com participações de Alaíde Costa, Wanda Sá e Theo Bial

Guardião das melhores tradições da bossa nova, Roberto Menescal está sempre envolvido em projetos relacionados a esta que é o gênero de música brasileira de maior reconhecimento mundial. E nesta quinta-feira (9), no palco do Teatro Riachuelo, ele divide a noite com Alaíde Costa, Wanda Sá e Theo Bial tendo o acompanhamento da Orquestra Sinfônica Villa-Lobos, sob regência de Adriano Machado. O projeto é inovador e, porque não dizer, ousado por levar a atmosfera intimista que marca as composições da bossa nova para a grandiosidade de uma formação sinfônica com suas múltiplas camadas sonoras.

Instrumentista, compositor e produtor, Menescal formou-se com mestres como Guerra Peixe e Moacir Santos, consolidando-se como um talento de sua geração no violão. Aos 18 anos, acompanhou a cantora Sylvinha Telles em turnê. Ao lado de Carlos Lyra, abriu uma academia de violão onde conviveu com Nara Leão, desenvolvendo parcerias que marcaram o movimento.

Entre suas composições mais conhecidas estão "O Barquinho", "Você" e "Nós e o Mar". Participou do concerto de bossa nova no Carnegie Hall em 1962, marco da expansão internacional do gênero. Com mais de 400 composições registradas, trabalhou como produtor da Polygram/Philips por 15 anos e fundou o selo Albatroz Discos. Apresentou-se em Estados Unidos, Japão e Europa, gravando com artistas como Wanda Sá, João Donato e Toots Thielemans.

Cantora e violonista, Wanda Sá estudou violão com Menescal e, em 1962, tornou-se professora na escola de música mantida por ele e Carlos Lyra, em Copacabana. Seu primeiro álbum, "Wanda Vagamente" (1964), foi produzido pelo amigo que reuniu músicos como Dom Um Romão e Edison Machado, tornando-se referência no rapertório bossanovista. Integrou o grupo Brasil '65 de Sérgio Mendes, excursionando pelos Estados Unidos. Gravou diversos álbuns em parceria com Roberto Menescal e João Donato.

Macaque in the trees
Alaíde Costa | Foto: Murilo Alvesso/Divulgação

Cantora e compositora, Alaíde Costa iniciou carreira em meados dos anos 1950, após trajetória em programas de calouros no rádio. Nascida no subúrbio carioca, destacou-se em concursos musicais. Em 1955, assinou contrato como crooner do Dancing Avenida e gravou seu primeiro disco em 1956. Figura associada aos primórdios da bossa, integrou o grupo de artistas das primeiras apresentações do movimento, ao lado de Sylvia Telles, Carlos Lyra e Menescal. Desenvolveu ainda parcerias autorais com Vinícius de Moraes, Tom Jobim e Johnny Alf.

Cantor e compositor carioca, Theo Bial desenvolve trabalho influenciado pela bossa nova, dialogando com a tradição da música popular brasileira. Após os álbuns autorais "Vertigem" (2022) e "Neo-Bossa" (2023), dedicou-se a projeto centrado na obra de Chico Buarque, levando o projeto ao Japão em 2025, apresentando-se ao lado de Roberto Menescal e Lisa Ono.

Macaque in the trees
Maestro Adriano Machado, regente da da Orquestra Villa-Lobos | Foto: Divulgação

Fundada em 2000 pelo maestro Adriano Machado, a Orquestra Sinfônica Villa-Lobos nasceu com proposta de aproximar a música de concerto do grande público sem renunciar. Destaca-se pela integração entre tradição do repertório de concerto e música popular. Com repertório plural e acessível, a orquestra já se apresentou em teatros, escolas, praças públicas e praias, alcançando públicos em diferentes regiões do Brasil. O grupo já dividiu palco com artistas como Roberto Carlos, Alok, Jorge & Mateus e Fábio Jr. Projetos como ViolinLive e apresentações em formato Cine Concert demonstram sua capacidade de renovação e diálogo com novas formas de fruição musical.

O repertório da noite inclui composições de Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Carlos Lyra e outros nomes que definiram a linguagem musical da bossa nova. Menescal apresentará "Barquinho" e "Ah Se Eu Pudesse", feitas em parceria com Ronaldo Bôscoli, além de "Wave" ao lado de Alaíde Costa. Com Theo Bial, o artista executa "Rio" e "Vagamente" com Wanda Sá. Alaíde Costa, que gravou o repertório bossanovista desde os anos 1960, traz "Insensatez", "Sabe Você" e "Eu e a Brisa". Wanda Sá apresenta "Samba de Verão", "Manhã de Carnaval" e "Coisa Mais Linda". Theo Bial, que revisita e atualiza o gênero em suas interpretações, canta "Minha Namorada" e "Rosa Morena". A apresentação inclui ainda números com participação conjunta dos quatro artistas, como "Chega de Saudade" e "Só Danço Samba", ambas de Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

O evento integra "Bossa Nova Hoje e Sempre", um projeto multiplataforma que se estende até o próximo ano com o lançamentode de um portal digital sobre a história da bossa nova, videocasts, talkshows, álbuns e uma exposição dedicada ao gênero.

SERVIÇO

BOSSA NOVA HOJE E SEMPRE

Orquestra Sinfônica Villa-Lobos com Roberto Menescal, Alaíde Costa, Wanda Sá e Theo Bial

Teatro Riachuelo (Rua do Passeio, 38 - Centro)

9/4, às 20h

Ingressos entre R$ 100 e R$ 220

 

Roberto Menescal: 'A bossa nova está viva, muito viva!'

Roberto Menescal | Foto: Fernanda Assis/Divulgação

Por trás da ideia de verter os maiores sucessos da bossa nova para um formato de orquestra está a mente ativa e inquieta do músico, compositor e produtor Roberto Menescal, um dos pioneiros deste movimento e, porque não dizer, um de seus arquitetos.

Nascido em Vitória e criado no Rio de Janeiro, iniciou seus estudos musicais ainda na adolescência, passando pelo piano e acordeão até se firmar no violão, instrumento que marcaria sua trajetória. Autor de canções como "O Barquinho", "Você", "Nós e o Mar", Menescal foi um dos participantes do icônico concerto do Carneggie Hall (Nova York), em 1962, que abriu as portas do mundo para a bossa nova.

Paralelamente, construiu carreira como produtor e diretor artístico da Polygram/Philips por 15 anos, período em que trabalhou com nomes importantes da MPB. Fundou ainda o selo Albatroz Discos e desenvolveu projetos em cinema e televisão, incluindo trilhas sonoras e programas musicais. Com mais de 400 composições registradas e extensa discografia, mantém, aos 88 anos atividade constante na música brasileira.

Tornou-se embaixador do movimento levando a música brasileira para os quatro cantos do mundo e hoje é um legítimo guardião desta tradição. Mas não pensem num guardião arraigado ao passado. O veterano músico ajudou a revelar cantoras como Leila Pinheiro e Cris Delanno e agora faz do jovem cantor e compositor Theo Bial seu mais novo parceiro e até anuncia um álbum com o músico carioca.

Nesta conversa com o Correio da Manhã, Menescal avisa, com sua serenidade habitual, que a bossa nova está mais viva do que nunca.

Como o senhor vê a transformação de canções consagradas da Bossa Nova executadas por uma orquestra sinfônica? O que a orquestra adiciona ou transforma na obra original?

Roberto Menescal - Ela pode transformar tudo, se ela quiser transformar mesmo, e pode adicionar algumas coisas, mas manter a forma original da nossa criação. Eu acho que o que a gente vai fazer é isso, quer dizer, usar o poder de uma sinfônica que valoriza a nossa música, mas mantendo também os dados iniciais e a forma que a gente as concebeu. Eu espero que seja assim, e vai ser.

Quem fez os arranjos para orquestra? Como foi adaptar composições criadas na intimidade do violão e voz para uma orquestra inteira?

Os arranjos foram feitos pelo maestro Adriano Machado e ele adaptou as nossas composições, criadas com violão e voz, para uma orquestra inteira. Ou seja, essa formação orquestral vai abrir as obras, algo como se você tivesse um videozinho aqui e, de repente, tivesse a nossa música no cinema, uma coisa bem maior. E tenho certeza que vai ser uma coisa que vai acrescentar muito para a gente e para o público.

Como foi o trabalho com o maestro Adriano Machado? Ele trouxe alguma visão que o surpreendeu ou que mudou sua forma de pensar sobre essas canções que você conhece tão bem?

Na verdade a gente não esteve juntos. A gente mandou para o maestro uma espécie de rascunho do que a gente acha que pode ser legal numa adaptação das canções para o formato orquestra, mas dando a ele liberdade total para que crie em em cima. A gente quer aprender também com o que ele pode criar em cima.

O senhor é um dos arquitetos da Bossa Nova. Como você vê seu papel agora — não apenas como criador, mas como guardião dessa memória?

Olha... o senhor está no céu. E como você observa agora, meu papel não é apenas como criador, mas como guardião dessa memória. Sim, sou um dos arquitetos da bossa nova... claro, porque não consegui ser arquiteto na vida, arquiteto na minha profissão de origem, mas acho que sou um dos arquitetos da bossa nova e acho que estou cumprindo meu papel. Tenho a preocupação de manter a nossa coisa acesa mais atual, não ficar de vivendo de passado. E a gente está conseguindo.

Você reencontra no palco artistas com quem comunga uma história em comum com a Alaíde Costa e a Wanda Sá, para quem você produziu seu álbum de estreia. Mas um de seus colegas neste projeto, o Theo Bial, representa uma geração que não viveu o nascimento da bossa nova. Como é para o senhor ver essa música reinterpretada por jovens artistas?

O Theo é um seguidor da gente, sabe? Para nós é muito, mas muito, importante ver que um cara jovem como o Theo que viveu e bebeu de nossa música, dessa tradição, e está hoje trazendo sua contribuição. Eu estou fazendo músicas com ele, já temos umas quatro, e vamos fazer um álbum juntos. Theo é um dos caras-chave para o seguimento da bossa nova. Todo mundo vai gostar muito dele, tenho certeza.

A bossa nova é frequentemente tratada como um movimento datado na história da música brasileira. Ela está viva? Pode gerar coisas novas?

Sim, ela está viva, muito viva! A gente acabou de fazer uma série de shows pelo Nordeste, São Paulo, Rio Grande do Sul, todos eles lotados. Você pode conferir. Em Porto Alegre era um teatro de 1.100 lugares todo lotado. Então, a nossa música está viva.