Tem disco novo de Stacey Kent, rouxinol do jazz contemporâneo, na praça: "A Time For Love". O álbum reafirma sua assinatura artística ao revisitar clássicos como "Carinhoso", que ela canta num português melífluo, fiel a seu estudo de diferentes línguas - algumas bem distantes de seu inglês natal. Vinda de South Orange, em Nova Jersey, a americana de 61 anos vive de seu aveludado gogó desde a década de 1990, quando gravou seu primeiro CD, "Close Your Eyes", em 1997.
De lá para cá, suas bolachas venderam 2 milhões de cópias e contabilizaram centenas de milhões de streams, além de ter conquistado uma indicação ao Grammy. Seu catálogo inclui trabalhos marcantes como "Breakfast On The Morning Tram". Pela estrada musical afora, ela teve entre seus colaboradores Marcos Valle, Roberto Menescal, Danilo Caymmi e o escritor vencedor do Nobel Kazuo Ishiguro.
Em "A Time For Love", ela contou com a direção musical do saxofonista Jim Tomlinson, seu parceiro de vida e de criação, além do pianista Art Hirahara. O resultado é um exercício de leveza que celebrar a força do benquerer. Uma das conquistas da artista é colaborar para a expansão da presença das mulheres no timão da criação artística. "Fico feliz por ver mulheres em lugares que antes eram apenas dos homens. Podemos olhar para isso com esperança, mas ainda há um caminho a percorrer", diz Stacey, que, neste papo com o Correio da Manhã fala de sua intimidade com a Flor do Lácio, dominando a língua portuguesa com capricho gramatical.
Com esse português perfeito que você tem, o que te atrai na canção "Carinhoso"?
Stacey Kent - "Carinhoso" trata de uma pessoa que fala com um amor que não existe, que não está lá. Gosto de canções que falam do "eu". Não me lembro quando eu a ouvi pela primeira vez, mas, provavelmente, fiquei com a versão de João Gilberto, sozinho com violão. Quando eu estava estudando a língua portuguesa na universidade, além mergulhar na gramática de vocês, eu fui conhecer sua música. Ao ouvir "Carinhoso", disse para mim mesma: tenho que encarar essa canção, ela é a minha canção.
Como constrói o repertório de um disco como "A Time For Love"?
Desde sempre, tenho meu iPhone comigo e estou sempre criando listas de músicas. Em qualquer lugar é assim. Posso até estar numa montanha e faço isso. De repente, penso numa canção que temos de cantar, e a anoto. É bem fácil para mim, porque o mundo é muito rico com canções maravilhosas. Eu não escolho de forma programática. Não penso "ah, vou escolher uma canção da Itália; outra, de Portugal; outra, do Brasil". Eu procuro as canções que me tocam, e isso também vem do fato de eu falar outras línguas. Considero essencial compreender a poesia do que canto, para além da melodia. Não consigo cantar numa língua que não compreendo. Cada palavra, cada nota, cada silêncio contam. Minha mãe era professora de Literatura. Em casa, líamos em voz alta quase todas as noites. Descobri muito cedo a minha própria voz, a partir da leitura. Descobri cedo também que a mesma história muda conforme quem a conta. E hoje, no palco, posso cantar qualquer coisa que me soe bem. Será uma reinterpretação... minha.
Há algo na língua portuguesa ou na canção brasileira/portuguesa que ainda não explorou, mas já está em seu radar?
Como disse Vinicius de Moraes, "a vida é a arte do encontro". Eu gosto de deixar as coisas acontecerem naturalmente. Tudo está aberto para mim. Quem vou encontrar pelo mundo pode mudar o meu caminho. Encontrei o escritor Kazuo Ishiguro pelo acaso, e ele mudou tudo no meu trabalho, escrevendo canções para mim. Músicos como Danilo Caymmi, Marcos Valle, Roberto Menescal foram grandes encontros.
E qual o papel do teu companheiro, Jim Tomlinson, na criação musical?
Sem Jim Tomlinson, não sei o que aconteceria na minha vida. A gente se conheceu quando ainda éramos muito jovens. Ele tem uma inteligência fora do comum, um coração enorme. Ela me inspira muito. Quando criamos música, travamos um diálogo. Nem sempre concordamos, claro, mas queremos encontrar juntos uma forma de apresentar ideias. A troca é essencial. Também trabalho há cerca de 20 anos com o pianista Art Hirahara. Entre nós, há uma química criativa muito forte.
Como você avalia o estado atual do jazz?
Não penso muito em gêneros musicais, pois eu me deixo comover com o que escuto. Apesar disso, é fato: o mundo do jazz é muito maior do que as pessoas pensam. Muitas vezes, as pessoas nem percebem que aquilo que está tocando a seu redor é jazz. Ele está em todo o lado: no cinema, nos videogames, em espaços públicos. Na minha relação com o ritmo, tocar ao vivo é o mais importante. Eu canto sempre... mesmo em casa, na cozinha. No palco, contudo, rola outra coisa: um senso de comunidade. É uma forma de partilhar histórias humanas. Não penso muito em géneros.
A tua música fala muito de amor, mas vivemos tempos difíceis. Qual é a dimensão política da sua arte, do seu repertório?
Como dizia o maestro e compositor Leonard Bernstein: "quanto pior o mundo fica, mais precisamos de criar música". É um ecossistema emocional. Temos de criar amor, ternura, comunidade. Foi por isso que dei ao disco o título "A Time for Love". O mundo é bonito, mesmo com tudo o que acontece.