Luedji Luna traz ao Circo Voador maturidade artística em turnê que reúne dupla de álbuns geminianos
Após a ousadia de lançar dois álbuns em sequência no ano passado — "Um Mar Pra Cada Um" e "Antes Que a Terra Acabe" — Luedji Luna chega ao Circo Voador para apresentá-los em alto e excelente som. Os shows acontecem nesta sexta e sábado (3 e 4). Luciane Dom abre a primiera noite e no dia seguinte é a vez de Jonathan Ferr.
Aos 38 anos, a cantora e compositora baiana consolida sua posição como uma das principais vozes da MPB contemporânea. Reconhecida por sua militância racial e feminista, Luedji construiu uma obra que mergulha na ancestralidade afro-brasileira e agora investiga as dimensões mais íntimas do amor e da carência. "Um Mar Pra Cada Um" é seu quarto álbum de estúdio, encerrando uma trilogia iniciada com "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água" (2020), que lhe rendeu indicação ao Grammy Latino em 2021.
O repertório que será apresentado navega pelas nuances do desejo através de ritmos como jazz e neo-soul. "Um Mar Pra Cada Um" traz uma abordagem mais introspectiva, com faixas como "Dentro Ali", "Harém" e "Salty" que exploram nuances do desejo e da busca por afeto. O disco conta com participações de Nubya Garcia, Liniker, Tali, Takuya Kuroda, Isaiah Shaker e Beatriz Nascimento — que recita seu próprio poema através de inteligência artificial, utilizando material de uma publicação póstuma. "Antes Que a Terra Acabe", lançado de surpresa dias antes, oferece uma visão mais terrena e crua do amor, com participações de Milton Nascimento, Seu Jorge, Arthur Verocai, MC Luanna, Duda Raupp, Kato Change e Zudizilla.
Segundo Luedji, os dois trabalhos funcionam como espelhos um do outro. "Esses dois discos são bem geminianos: mutável, dinâmico e transformador. Um espelha o outro", define a artista. Enquanto "Um Mar Pra Cada Um" busca encontrar o amor divino e supremo — inspirado em "A Love Supreme" de John Coltrane — "Antes Que a Terra Acabe" navega com desenvoltura entre sonoridades que aparentemente não dialogam: a intimidade do lo-fi convive com bossa nova repaginada, e a energia pulsante do afrobeat se encontra com batidas características do amapiano sul-africano.
No primeiro disco, a presença massiva de instrumentos de sopro carrega significado espiritual. "O sopro que anima a vida, que está presente no início de todas as coisas, na cosmogonia cristã e em tantas outras", explica Luedji. "A etimologia da palavra 'espiritualidade' vem do latim 'spiritus', que quer dizer sopro. Ele é o veículo e o amor é a fonte originária; o fundamento de toda criação." A faixa "Gênesis" abre o disco como instrumental regido pelos músicos baianos Bira Marques (piano), Bruno Mangabeira (sax), Nei Sacramento (bateria) e Ângelo Santiago (contrabaixo).
Para este trabalho, Luedji aplicou em sua música processos terapêuticos nos quais se envolveu durante o último ano, utilizando propositalmente determinadas frequências e elementos de sound healing para construir a perspectiva de cura trazida pelos discos. No palco do Circo, a artista é acompanhada por músicos que caminham ao seu lado há anos: Jhow Produz na direção musical e bateria, Weslei Rodrigo no baixo, Gabriel Gaiardo nos teclados, Rudson Daniel nas percussões, Sidmar Vieira no trompete, Jefferson Rodrigues no saxofone, além de um trio de backing vocals e guitarra.
Na sexta, Luciane Dom (que agora se apresenta como Ludom) faz sua estreia com show completo no Circo. Sete anos após lançar "Liberte Esse Banzo" (2018), a cantora, compositora, produtora musical e historiadora apresenta seu segundo trabalho, que mistura MPB, hip-hop, gospel e afro-jazz. Jonathan Ferr, um dos nomes mais celebrados da nova geração do jazz brasileiro, abre o sábado com sua mistura de piano, hip-hop e beats eletrônicos que conquistou reconhecimento da crítica internacional.
SERVIÇO
LUEDJI LUNA - UM MAR PARA CADA UM, ANTES QUE A TERRA ACABE
Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)
3 e 4/4*, a partir das 20h (abertura dos portões)
Abertura dos portões: 20h
Ingressos a partir de R$ 180 e R$ 90 (meia)
*Sábado (4) com ingressos esgotados