Por: Affonso Nunes

X Alfonso: 'Não venho apenas tocar músicas, venho compartilhar um pedaço da Cuba atual'

X Alfonso | Foto: Larisa Lopez/Divulgação


X Alfonso é um dos nomes mais multifacéticos da música cubana contemporânea. Desde os anos 1990, o instrumentista, compositor, intérprete e artista visual transita com total desenvoltura pelo rock, pop rock, hip-hop, música eletrônica e raízes afrocubanas, construindo uma carreira que o consolidou como um dos grandes exponentes artísticos da ilha. Começou a tocar já aos sete anos e, nos anos, 90, após se formar, juntou-se ao grupo cubano Síntesis, liderado por seus pais, Carlos Alfonso e Ele Valdès. "Cheguei bem na época em que o tecladista do grupo estava saindo, então comecei tocando teclado. Depois, acabei na percussão e nos vocais. Foi assim que aprendi a tocar os instrumentos, por necessidade". Sua música é marcada por uma lírica reflexiva que busca despertar consciências, combinando experimentação sonora e profundidade poética. E é essa estética que ele revela ao público brasileiro nesta quarta (1), às 22h30, em apresentação única no Blue Note Rio. O músico ganhou o Grammy Latino em 2022 pelo arrojado álbum "Ancestros Sinfónico" - um raro encontro da ancestralidade afrocubana com orquestra -, foi indicado outras quatro vezes ao prêmio e recebeu o prestigiado Prêmio Goya (Espanha) pela trilha sonora de "Habana Blues". Sua trajetória não se resume aos palcos: em 2010, tornou-se Embaixador de Boa Vontade da Unicef.

Mas talvez sua marca mais visível seja a Fábrica de Arte Cubano (FAC), projeto sócio-educatico artítico que lidera desde 2013. O espaço, instalado em uma antiga fábrica de óleo de cozinha, transformou-se em um epicentro cultural reconhecido pela revista Time como um dos 100 melhores lugares do mundo. Ali, artistas emergentes convivem com nomes consagrados em um ambiente que reflete a própria estética de Alfonso: sem fronteiras entre gêneros, formatos e disciplinas.

Movido a colaborações, participou de projetos com nomes como Síntesis, Santiago Feliú, Meshell Ndegeocello, Audioslave e Rick Wakeman, e seus shows são conhecidos por serem obras de arte em si: pintores, rappers e dançarinos dividem o palco enquanto vídeos projetados ampliam a experiência visual.

Nesta entrevista, conversamos com X Alfonso (nome artístico de Equis Alfonso) sobre sua trajetória, os desafios de seu produzir arte num país sob constante bloqueio ecomônico há mais de 60 anos, o significado da Fábrica de Arte Cubano e como a música segue sendo, para ele, um instrumento de transformação.

Como você descreve a evolução da sua música desde seus primeiros trabalhos na década de 1990 até álbuns conceituais cooo "Ancestros Sinfónico", vencedor do Grammy Latino?

X Alfonso - Foi uma viagem linda de desapego e reencontro. Nos anos 90, meu motor era a experimentação pura; eu queria quebrar padrões misturando rock e hip-hop com aquilo que absorvi em casa. Era uma energia muito externa, de fusão direta. Com o tempo, essa busca se tornou mais introspectiva. "Ancestros Sinfónico" não é apenas um álbum, é um ciclo que se fecha. Passar dos sintetizadores para a grandiosidade de uma orquestra, para honrar o legado dos meus pais e a herança afrocubana, foi um processo de amadurecimento. Continuo sendo o mesmo rebelde, mas agora entendo que a verdadeira vanguarda está em transmitir nossas raízes com o olhar do presente.

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Encontro da ancestralidade afrocubana com orquestra, 'Ancestro Sinfónico' sintetiza a proposta artística de X Alfonso | Foto: Divulgação

E como conciliar essas raízes cubanas com uma carreira internacional?

Conciliar essas duas realidades é algo natural, porque a música é uma linguagem universal. Minhas raízes são o motor que me permite ser autêntico em qualquer palco do mundo. Para mim, as raízes não são algo que carrego, mas algo que sou. Através delas, construo uma ponte cultural com o mundo e com o público dentro e fora de Cuba. Sinto-me em casa em qualquer lugar onde me apresento — Europa, América Latina ou nos Estados Unidos — porque, repito, a música é universal.

Quais foram as lições mais importantes das suas colaborações com artistas internacionais como Meshell Ndegeocello, Rick Wakeman e Audioslave?

Trabalhar com artistas desse calibre foi uma verdadeira aula de humildade e rigor. Com Meshell Ndegeocello, aprendi a profundidade do groove; ela tem uma forma quase espiritual de entender o baixo, que me mostrou que, às vezes, menos é muito mais. Com Rick Wakeman, a lição foi a liberdade técnica. Ver um gênio do rock progressivo de perto me deu confiança para continuar rompendo estruturas. E o encontro com Audioslave em Havana foi histórico: me mostrou que a música é uma ponte política natural. Eles vieram com uma curiosidade genuína pelo que fazíamos, e essa escuta mútua é a chave de qualquer colaboração bem-sucedida. A maior lição é que, independentemente de quantos discos você tenha vendido, o verdadeiro artista nunca deixa de ser um aprendiz.

O que o público brasileiro pode esperar do seu espetáculo? E como você adapta seu repertório, geralmente de atmosferas gradiosas, a um espaço íntimo como o Blue Note Rio?

O público brasileiro e o cubano compartilham um DNA rítmico e emocional muito forte; ambos entendem que a música é uma cerimônia. O que podem esperar é uma experiência visceral. Não venho apenas tocar músicas, venho compartilhar um pedaço da Cuba atual. Em um espaço íntimo como o Blue Note, a música se desnuda e fala por si só — é um desafio que eu adoro.

Conte mais sobre a Fábrica de Arte Cubano (FAC), considerada pela revista Time um dos 100 melhores lugares do mundo. Como ela continua impulsionando jovens artistas em Havana?

A Fábrica de Arte Cubano é minha obra mais coletiva. O reconhecimento da Time foi importante, mas o verdadeiro prêmio é ver como ela transformou a cena cultural em Havana. Mais do que um centro cultural, é um laboratório de liberdade. Para os jovens artistas, a FAC é um espaço onde o "não pode" não existe. Oferecemos um palco profissional, visibilidade e, sobretudo, a oportunidade de diálogo entre diferentes disciplinas. Esse intercâmbio criativo é o que impulsiona novas carreiras. Seguimos apostando na autogestão e em ser uma ponte onde a arte não é elitista, mas uma experiência cotidiana para todos.

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Criada em 2013 numa fábrica de óleo desativada, a Fábrica de Arte Cubano é um epicentro de linguagens culturais | Foto: Divulgação

Quais são os principais desafios de produzir arte em um país sob bloqueio econômico constante, como Cuba?

O principal desafio é a incerteza em todos os sentidos. Isso às vezes te desanima, mas também te obriga a ser um engenheiro da criatividade. Você não pode simplesmente se render diante de um bloqueio — seja interno ou externo. É preciso continuar pulando muros, encontrando soluções todos os dias. A escassez nos tornou mestres da síntese e nos impulsionou a buscar novos caminhos, o que também torna a arte mais autêntica. Criar nessas condições é um ato de fé: transformamos a limitação em estética e o obstáculo em mais uma razão para levantar a voz. E, repito, não é fácil para ninguém — seja artista ou não —, mas é impressionante quantas coisas interessantes surgem em meio a todo esse caos.

SERVIÇO

X ALFONSO

Blue Note Rio (Av. Atlântica, 1910 - Copacabana)

1/4, às 22h30

Ingressos: R$ 120 e R$ 60 (meia)