Compositor, poeta, escritor e dramaturgo e sua vasta obra são tema de fotobiografia que Júlio Diniz lança nesta terça na Livraria Travessa do Leblon
O poeta e ensaísta americano Ezra Pound (1995-1972) disse certa vez que "o poeta é a antena da raça". O também poeta, romancista, dramaturgo, produtor musical e compositor popular Paulo César Pinheiro sintetiza esta assertiva, mas gosta de dizer que recebe um caboclo toda vez que está criando. "Me defino com um observador da alma, da vida. Enquanto estou fazendo música, sou um compositor. Em determinando momento isso para dentro de mim. Aí muda de caboclo, baixa outro. Quando não é poesia de livro, é de música, de trilha sonora. Ou teatro, romance. Eu fico imerso nisso o tempo inteiro, esperando que venha o caminho que for. Não tenho pressa".
O trecho acima é parte de uma reportagem que feita por este repórter com este poeta da canção popular. No escritório de seu apartamento em Laranjeiras, cercado de cadernos amarelos, dicionários de yorubá e nagô, dezenas de melodias de parceiros aguardam por letras. "Enquanto estou fazendo música, sou um compositor. Em determinado momento isso para dentro de mim. Aí muda de caboclo, baixa outro. Quando não é poesia de livro, é de música, de trilha sonora. Ou teatro, romance. Eu fico imerso nisso o tempo inteiro, esperando que venha o caminho que for", detalha.
Essa definição — observador — é a chave para entender uma obra que, aos 76 anos, acumula dois mil composições, mais de mil e quinhentas gravadas, 10 livros publicados, 17 manuscritos inéditos em casa e algo em torno de 600 letras prontas aguardando parceiros.
Ao lançar "Paulo César Pinheiro: O Poeta de Todos Nós" nesta terça-feira (24) na Livraria Travessa do Leblon, Júlio Diniz nos brinda com uma fotobiografia que revela como funciona uma mente criativa que não separa beleza de urgência, forma de conteúdo, poesia de política.
Organizada com colaboração de Conceição Campos (autora de "A Letra Brasileira de Paulo César Pinheiro") e do pesquisador Rodrigo Alzuguir, reúne imagens, cronologia e depoimentos de artistas que foram parceiros diretos — Dori Caymmi, Francis Hime, Ivan Lins, Lenine e Luciana Rabello, a esposa do compositor. "Seu coração é o mapa do Brasil", define a campamheira em seu depoimento. "Paulinho sabe tudo, é um erudito do Brasil profundo - acho que não há música, dança, comida, palavra, planta ou bicho do Brasil que ele não conheça", completa Joyce Moreno. Para Lenine, o compositor "é Fernando Pessoa reencarnado".
A imensa obra de Pinheiro não pode ser entendida isoladamente, pois existe em diálogo permanente com a nossa canção popular, com a história política do país, com a tradição do samba e com a experimentação da MPB.
O processo criativo de Pinheiro é sistemático, quase antropológico. Durante a entrevista de 2018, abriu um caderno de capa amarela para explicar: "Aqui estão anotações de ideias que me surgem. Versos esparsos, situações que vislumbro na rua, num bar, em qualquer lugar, frases que escuto. Não vivi tudo o que escrevo, mas observo", revelou na ocasião. "Eu me fecho aqui para ouvir essas melodias, escrever, consultar as anotações. E isso não tem hora para acontecer. Pode ser no meio da tarde ou de madrugada. Minha mulher colocou uma cama aqui para mim. Costumo dizer que eu moro nesse escritório e as outras pessoas no resto da casa", completou.
A densidade intelectual de Pinheiro revela-se em composições como "Canto das Três Raças", em parceria com Mauro Duarte — eternizada por Clara Nunes, sua primeira esposa (casados de 1975 até sua morte precoce em 1983). A letra não é apenas um lamento na história brasileira, mas sua narração por meio do sentimento de dor: "Negro entoou um canto de revolta pelos ares / No Quilombo dos Palmares, onde se refugiou. / Fora a luta dos inconfidentes / Pela quebra das correntes. / Nada adiantou."
Sua criação musical começou aos 14 anos com João de Aquino, compondo "Viagem". Seu primeiro sucesso, "Lapinha", nasceu de um verso tradicional do samba de roda dos capoeiristas de Santo Amaro — "Quando eu morrer / Me enterre na lapinha / Calça culote, palitó almofadinha". A canção foi defendida por Elis Regina na I Bienal do Samba em 1966. Desde então, trabalhou com mais de uma centena de parceiros: Baden Powell, Pixinguinha, Radamés Gnattali, João Nogueira, Tom Jobim, Ivan Lins, Francis Hime, Mauricio Carrilho, Mauro Duarte Eduardo Gudin e muitos outros.
A trajetória de Pinheiro não se limita à canção. Escreveu duas peças teatrais — "Galanga Chico Rei", sobre a trajetória do rei do Congo escravizado que se tornou rei de um quilombo em Minas Gerais, e "Besouro", sobre o mestre capoeira cuja vida real mistura-se com lenda no Recôncavo Baiano. Ambas foram dirigidas por João das Neves, recentemente falecido. "Essas montagens arrancaram elogios da temida Bárbara Heliodora, o que para mim foi uma proeza tão grande quanto os prêmios", recorda Pinheiro. "Lembro que ela pediu para me conhecer para me parabenizar. Acho que nem sabia que eu era um compositor conhecido." As duas peças teatrais já foram premiadas. Publicou 10 livros — dois romances e oito de poesia.
Sua obra ganhou reconhecimento institucional: Grammy Latino em 2002 pela canção "Saudade de amar" (em parceria com Dori Caymmi, interpretada por Nana Caymmi), Prêmio Shell da Música Brasileira pelo conjunto da obra, e Estandarte de Ouro pela Tradição pela Portela, dissidência que ajudou a fundar.
A consolidação de sua reputação como compositor se deu através dos festivais populares nas décadas de 1960 e 1970. "Festival dava grana. Ganhei muito dinheiro com eles. Mas também era um espaço importante para conhecer novos autores, músicos e intérpretes. Uma troca imensa", comentou a este repórter. "A indústria mudou e os festivais tentaram se adaptar, sem sucesso", disse.
Mas sua obra foi além dos festivais. Ganhou o Brasil nas vozes de Elis Regina, Elizeth Cardoso, Simone, Clara Nunes e uma extensa relação de intérpretes. Com João Nogueira, criou mais de 50 sambas entre os anos 1970 e 1990, celebrados no álbum "Parceria" de 1994 — um registro de 22 anos de parceria entre dois dos maiores ícones da música brasileira.
Pinheiro é versado nos elementos da cultura africana como poucos. Começou a estudar os mais diversos elementos da cultura negra lendo de forma voraz e frequentando rodas de samba de caboclos e de capoeiras. A influência maior nesse período era o amigo Baden Powell, que também vivia em São Cristóvão, seu bairro de infância. "Fui fortemente atraído pelas músicas poderosas dessa linha… aquele batuque diferente, riquíssimo em divisões estranhas. Isso sem contar as roupas, comidas, a língua, um mundo muito fascinante", disse. Esse universo povoa sua obra — em suas composições, em suas peças teatrais, em seus livros.
Pinheiro reconhece o desejo de que seus livros recebessem igual distinção que suas canções. "Minhas duas peças teatrais já foram premiadas. Tenho um Grammy e um Prêmio Shell pelo conjunto da obra. Se eu gostaria de receber um Jabuti? Claro que sim", disse. A fotobiografia de Júlio Diniz, portanto, oferece uma oportunidade: a de reler Paulo César Pinheiro não apenas como letrista, mas como poeta completo.
SERVIÇO
PAULO CESAR PINHEIRO: O POETA DE TODOS NÓS
Livraria Travessa do Leblon (Shopping Leblon, Av. Afrânio de Melo Franco, 290 - Leblon)
24/3, a partir das 19h