Por: Affonso Nunes

Voz de Elis ressurge com esplendor em versão restaurada de ábum icônico

Elis Regina durante especial da TV Cultura, exibido em 1973 | Foto: Reprodução YouTube e Fotos/Divulgação

Novos recursos fazem com que 'Elis 73' possa ser ouvido em qualidade superior, restabelecendo a qualidade da gravação original

Avoz de Elis Regina soava, no álbum que ela lançou em 1973, como se viesse de trás de um vidro. Não por falta de talento — isso nunca foi questão — mas por limitações técnicas da captação da época, que comprometiam a clareza do que foi gravado. Cinquenta e três anos depois, o disco homônimo "Elis", lançado originalmente pela Phonogram quando a cantora tinha 27 anos, chega às plataformas de streaming com nova mixagem e remasterização assinadas pelo produtor João Marcello Bôscoli, filho da cantora, e pelo engenheiro Ricardo Camera. O resultado é o mais próximo que se pode chegar de ouvir Elis Regina com a nitidez que ela merecia desde sempre.

O projeto nasceu de uma insatisfação antiga. Fãs mais atentos sempre apontaram o áudio do álbum de 1973 como um ponto fraco na discografia da cantora. A esperança de que algo fosse feito cresceu em 2021, quando João Marcello e o engenheiro Carlos Freitas remasterizaram "Elis 72". Desta vez, a parceria foi com Ricardo Camera — engenheiro que acumula três Latin Grammy em 2025 —, com apoio da Universal Music Brasil, herdeira do catálogo da Phonogram.

O trabalho levou quase dois anos. Ao abrir as faixas, a dupla encontrou um cenário complicado: a gravação, feita em oito canais, trazia problemas estruturais difíceis de contornar. O mais grave era a bateria, captada com apenas um microfone, cujo som vazava para o canal do piano e criava um resíduo incômodo ao longo de todo o disco. "Tivemos de separar os sons das peças da bateria e retirar os vazamentos", explica Camera, que demonstrou em áudio a quantidade de ruídos que surgem quando o piano é isolado. A solução exigiu precisão cirúrgica: nenhuma nota foi alterada, nenhuma intenção artística foi tocada. O que mudou foi a camada de interferência que encobria todo o material.

O resultado final incorpora a tecnologia Dolby Atmos, que distribui os instrumentos em posições específicas ao redor do ouvinte, criando algo como um palco sonoro tridimensional. "Respeitamos a ideia da gravação original e fizemos a voz de Elis sair de dentro da cabeça de quem a ouve para torná-la ainda mais confidente", diz Camera. Para João Marcello, a restauração era uma questão pessoal. "Sempre achei o áudio desse álbum muito estranho. E muitos fãs me procuravam para dizer o mesmo." Até o fim do ano, o relançamento ganhará também versão em LP.

Macaque in the trees
A baixa qualidade da captação original do álbum era algo que incomodova João Marcelo Bôscoli, guardião do legado de Elis | Foto: Divulgação

O álbum em si é um dos momentos mais introspectivos da carreira de Elis. Em 1972, ela havia gravado "Águas de Março" e "Casa no Campo". Em 73, não estava para levezas. Com exceção dos sambas "Ladeira da Preguiça" e "Meio de Campo", de Gilberto Gil, o repertório mergulha fundo: mais canções de Gil ("Oriente" e "Doente Morena", em parceria com Duda Machado) e uma sequência de composições da dupla João Bosco e Aldir Blanc — "O Caçador de Esmeralda" (com Claudio Tolomei na coautoria), "Agnus Sei", "Cabaré" e "Comadre". O samba lento "É com Esse Que eu Vou", de Pedro Caetano, e a clássica "Folhas Secas", de Nelson Cavaquinho com Guilherme de Brito, completam um disco que, na época, foi recebido com ressalvas por parte da crítica.

Alguns jornalistas consideraram a interpretação de Elis fria e técnica demais. Ela riu ao ser confrontada com a opinião. Décadas depois, João Marcello é mais direto. "Foi a coisa mais estúpida escrita na história da crítica mundial", ataca.

Parte dessa percepção de frieza, no entanto, pode ter vindo do próprio áudio opaco, que impedia que a entrega emocional de Elis chegasse intacta ao ouvinte. Ouvir hoje "Folhas Secas" ou "Cabaré" na versão remasterizada é confrontar essa teoria diretamente — a voz ganha profundidade e se posiciona à frente da mixagem, enquanto detalhes dos arranjos, antes encobertos pelo ruído, aparecem com clareza. A direção musical era de Cesar Camargo Mariano, então marido da cantora.

O projeto foi concebido para celebrar os 80 anos que Elis faria em 2025, mas a complexidade do trabalho adiou o lançamento para este ano, na semana do aniversário da cantora (nascinda em 17 de março) . O disco chega agora às plataformas — e soa, pela primeira vez, como deveria ter soado desde o começo. Elis merece.

 

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O icônico 'Elis 73' ganha nova edição remasterizada e remixada pelas mãos de seu filho, o produtor João Marcelo Bôscoli | Foto: Divulgação