'Taracá' marca o retorno do compositor uruguaio ao seu país natal e consolida sua posição como voz central da música latino-americana
Jorge Drexler está voltando para casa. "Taracá", 15º álbum de uma discografia de excelência, é o resultado desse retorno geográfico e existencial. É um disco nascido do luto, da migração, do ritmo e da sensação de volta que o artista define como "um álbum de luto, mas também celebratório, uma contradição que ainda não consigo explicar completamente".
A contradição existe porque o disco foi gestado em um momento de transformação profunda. Há dois anos, após a morte de seu pai, o compositor deixou de ser apenas filho. Naquele mesmo ano, completou 60 anos e marcou três décadas vivendo na Espanha. "Foi o ano em que deixei de ser filho para ser só pai", disse em entrevista. "Senti a necessidade de me reconectar com o Uruguai, não sei bem por quê." A resposta veio através das rodas de candombe que tomaram conta de Montevidéu — um fenômeno que Drexler descreve como uma "revolução".
A relevância de Drexler na cena latino-americana não é questão de debate. Com 17 prêmios Grammy Latino, um Oscar por melhor canção original (2005, por "Al otro lado del río") e uma carreira que dialoga simultaneamente com poesia, ciência, tradição e experimentação, ele é um dos poucos artistas que transcendeu fronteiras nacionais sem virar genérico. Mas "Taracá" marca algo diferente: é seu primeiro disco gravado no Uruguai em quase 30 anos, e é, por definição do próprio artista, "o mais comunitário que já fiz".
O título carrega duplo significado. "Taracá" é a onomatopeia do som do tambor chico — aquele instrumento que, nas palavras de Drexler, "toca todas as batidas do compasso, exceto a fundamental. Indica um evento circundando-o, sem tocá-lo, como um copo circunda a água". Mas "taracá" também é uma contração de "estar acá" — estar aqui. Nesse duplo sentido, Drexler encontrou a tese do álbum: o tambor é som, sim, mas é também uma questão de localização, de plantar o corpo de volta na história.
As onze faixas mapeiam sonoridades latino-americanas. Uruguai, Porto Rico e Espanha formam equação, mas é o candombe uruguaio que liga tudo. As colaborações revelam a ambição real: Rueda de Candombe, Américo Young, a murga Falta y Resto, Young Miko, Julio Cobelli e Ángeles Toledano.
"Eu poderia ter trabalhado com quem quisesse neste álbum", disse. "Mas escolhi trabalhar com pessoas que têm entre 21 e 22 anos", explicou o artista, referindo-se aos produtores uruguaios Tadu Vázquez e Facundo Balta, o engenheiro Lucas Piedra Cueva, e os produtores porto-riquenhos Mauro e Gabo Lugo.
Um momento revelador dessa fase é a reinterpretação de "O Que É O Que É?", o samba de Gonzaguinha de 1982. Drexler a transformou em "¿Qué Será Que Es?" — uma versão em espanhol gravada com uma roda de candombe. "Esta música sempre me chamava a atenção nas rodas de samba quando tocava no Brasil, e era um momento de elevação espiritual. Tem uma série de questões ontológicas e filosóficas sobre o ser e sobre a vida, que ampliam o escopo do gênero musical", explicou o artista, que costuma colaborar com colegas brasileiros. Ele compara a estrutura da canção à de uma tragédia grega — começa com um refrão grandioso, passa por partes menores, atravessa estágios de dor e perplexidade, terminando naquela celebração inicial.
"Sei que é uma música muito importante no Brasil. Minha intenção é levá-la a outro público, da América Latina, misturada com o candombe. Quis uma homenagem responsável, com referências ao samba, mas fazendo uma adaptação própria, como os brasileiros fazem. Quando João Gilberto pega uma canção de Cole Porter, ele não a canta no ritmo original, a leva para seu próprio terreno. Esse é o ato de amor mais sincero."
A volta de Drexler ao Uruguai não é nostálgica. É perspicaz. Ele descreve a música uruguaia como estando em uma "fase particularmente interessante", com figuras muito novas fazendo pontes entre música urbana, trap e nova geração. "Eram muitas novidades que me fizeram voltar para gravar aqui", disse. E essa volta se reflete em cada faixa — não há produção excessiva, não há efeitos que distraem. Há apenas a densidade sonora de quem entende que a melhor experimentação é aquela que não abandona a tradição, mas a reinterpreta.
No final de uma entrevista com a revista We Are Mitú, Drexler teve uma revelação: "Este álbum é... um pedido de permissão da comunidade uruguaia para me reintegrar." Naquele momento, ficou claro que "Taracá" não é apenas um disco sobre volta para casa. É um disco sobre pedir para entrar de novo no círculo. É um álbum para pessoas que não podem sempre voltar para casa. E nesse sentido, Drexler fez o que os melhores artistas fazem quando vivem o suficiente para entender a diferença entre aclamação e pertencimento: fez um disco que soa como um homem falando, depois o abriu o suficiente para que uma comunidade inteira respondesse.