Em meio à carreira de sucesso de seu thriller sobre o mundo laboral, que estreia dia 13 na MUBI, Park Chan-wook vai julgar os concorrentes à Palma de Ouro de 2026, em maio
Numa única sessão por dia no circuito carioca desta segunda até quarta-feira, no Estação NET Rio, às 18h15, "A Única Saída" ("No Other Choice"), do sul-coreano Park Chan-wook, acabou por ser esnobado na luta pelo Oscar de 2026, sem indicação alguma, mas passou triunfante pela passarela do lucro ao faturar US$ 39 milhões, somando, na venda de ingressos, cerca de três vezes o orçamento que custou (US$ 12,2 milhões). No próximo dia 13, esse thriller começa sua vida em streaming, com estreia na plataforma MUBI. O lançamento por lá acontece num momento de virada para o longa-metragem... e para seu diretor. No dia 26 de fevereiro, o Festival de Cannes anunciou que Chan-wook será o presidente do júri de sua 79ª edição, agendada de 12 a 23 de maio, na França, o que ampliou o interesse popular por suas criações, a se destacar seu trabalho mais recente, hoje na telona.
O site oficial do evento francês usa três palavras para classificar a obra do realizador de "visceral, subversivo e barroco", explicando que seus longas-metragens "são ousados em todos os sentidos - no roteiro, no estilo e na moralidade", sem que o "virtuoso realizador se afaste de uma mensagem social simbólica". Foi lá que ele fez sua fama, há 22 anos, ao ganhar o Grande Prêmio do Júri de 2004 por "Oldboy".
"A inventividade, o domínio visual e a propensão de Park Chan-wook para capturar os múltiplos impulsos de mulheres e homens com destinos estranhos proporcionaram ao cinema contemporâneo alguns momentos verdadeiramente memoráveis", afirmaram a presidente do Festival de Cannes, Iris Knobloch, e seu diretor artístico, Thierry Frémaux, num comunicado à imprensa. "Estamos muito felizes por celebrar seu imenso talento e, de forma mais ampla, o cinema de um país profundamente envolvido com o questionamento do nosso tempo".
Ele é signo de sucesso de uma filmografia inquieta, hoje com muitos medalhões autorais na ativa, que fatura aos montes. Afinal, tão luminosas quanto as estatuetas conquistadas por "Parasita", entre 2019 e 2020, entre elas quatro Oscars e a Palma de Ouro de Cannes, foram as cifras comerciais que arrecadou para sua nação, a Coreia do Sul. A produção dirigida por Bonh Joon Ho em 2019 custou US$ 11,4 milhões e faturou US$ 258,1 milhões. Nunca um longa coreano chegou tão longe. Por interesse em um novo faturamento desse porte mastodôntico, cada novo empreendimento autoral de pinta mais pop daquela nação é cercado de promessas messiânicas para o mercado. Do mais prolífico realizador daquela pátria, Hong Sangsoo, não se espera isso. Seu cinema intimista pipoca por tudo quanto é festival. Seu novo trabalho, "The Day She Returns", estreou na Berlinale, em fevereiro, no sapatinho, sem alarde. Apesar disso, ele não se enquadra em nenhuma das convenções conhecidas de blockbuster. O cult de Joon Ho também não, mas tem um dinamismo de ações físicas e um torvelinho de reviravoltas de roteiro que se alinha com mais precisão aos códigos do thriller. É esse também o caso de "A Única Saída", com que Chan-wook, bola da vez cinematográfica de seu país, pavimenta o legado de sua autoralidade.
"Ele tem uma dinâmica muito particular de ação, que sabe o que extrair de nossa condição solitária, deixando um ator como eu live para propor soluções físicas ao roteiro", disse o astro Lee Byung-hun ao Correio da Manhã, via Zoom, quando ele e o longa foram indicados ao Globo de Ouro.
Lançado mundialmente no Festival de Veneza, na briga pelo Leão de Ouro, "A Única Ssaída" (chamado "Eojjeolsuga eobsda" em sua língua nacional) é uma versão do romance "O Corte", lançado em 1997 por Donald Edwin Westlake (1933-2008), e filmado em 2005 por Costa-Gavras. Na medula do projeto de Chan-wook há um conceito da arte que se chama "heroísmo do rendimento". Foi um livro do século XIX, Germinal (1885), de Émile Zola (1840-1905), que abriu a torneira dessa dramaturgia. Ela pode ser descrita por ser uma linhagem sociológica de narrativas em que a jornada dos protagonistas se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. Cabem aí de Chaplin a Plínio Marcos, passando por Rocky Balboa, com amplo espaço para as personagens de Ken Loach e do próprio Costa-Gavras. Não é rara a associação deste procedimento temático às cartilhas marxistas de luta de classes e aos engenhos teóricos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia com organismos biológicos. Nessa toada, há lugar também para os aportes do naturalismo — uma corrente anfíbia entre a arte e as ciências sociais — que representa territórios como se fossem as entranhas dos corpos, com as suas escatologias e dinâmicas de excreção. É nesse naturalismo que uma parte nobre do cinema sul-coreano se instalou desde os anos 2000.
Enervante (e irregular), "A Única Saída" se filia à genealogia do rendimento ao seguir os passos do desempregado Man-su (Lee Byung-hun, num registo que evoca Buster Keaton). Especialista em fabrico de papel, ele tomba ao inferno depois de perder o emprego. Sem chance de obter um trabalho, passa a eliminar seus concorrentes. Sua saga se constrói na fotografia de Kim Woo-hyung com planos que distorcem a aparência de harmonia do real, mergulhando o espectador numa vertigem visual.
"Tenho uma relação muito forte com a palavra, pela literatura e, talvez, ela seja a responsável pelos trilhos narrativos que eu tento oferecer ao cinema: a trilha da imaginação, que se liberta nos livros, mas pode também nos libertar pela imagem", disse Chan-Wook ao Correio da Manhã, na Croisette, quando foi laureado com o prêmio de Melhor Direção por "Decisão de Partir", em 2022.
Recentemente, ele trabalhou com o diretor paulista Fernando Meirelles (de "Cidade de Deus") na minissérie da HBO MAX "O Simpatizante" (2024), com Robert Downey Jr.