Por: Affonso Nunes

O concreto ainda está rachado

Coerente desde o início, a Plebe Rude segue sem fazer concessões ao mainstream | Foto: Divulgação

Quarenta anos depois, a Plebe Rude chega ao Circo Voador para tocar na íntegra seu aclamado álbum de estreia que fez história no rock brasileiro

Brasília, 1981. A ditadura ainda respirava, embora já com dificuldade. No meio desse ar pesado, quatro jovens que ensaiavam covers do Clash decidiram que imitar não bastava — era preciso gritar sa nossas coisas, como nosso sotaque. Nascia a Plebe Rude, numa cidade planejada para o poder, por gente que não tinha nada a ver com o poder. Quarenta e cinco anos depois, Philippe Seabra, André X, Clemente Nascimento e Marcelo Capucci sobem ao palco do Circo Voador nesta sexta-feira (27), para celebrar a banda e os 40 anos de "O Concreto Já Rachou", um álbum marcante do rock brasilis.

O álbum chegou ao mercado em fevereiro de 1986 com colaborações mais que preciosas: produzido por Herbert Vianna, com press release assinado por Renato Russo e participação de Fernanda Abreu — então ainda no Blitz. A gravadora EMI relutava diante do projeto. Foi Herbert quem a convenceu. O resultado? Disco de Ouro, faixas que viraram hinos de uma geração como "Proteção", "Até Quando Esperar", "Minha Renda" — e uma presença permanente nas listas dos maiores álbuns da história da música brasileira, incluindo a 57ª posição no ranking da Rolling Stone Brasil.

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A Plebe Rude e seu padrinho Herbert Vianna se divertem nos bastidores da gravação de 'O Concreto Já Rachou' | Foto: Reprodução

O que faz um disco de 1986 ainda ter o que dizer em 2026? A pergunta é menos sobre o álbum do que sobre o país. "O Concreto Já Rachou" era um diagnóstico de um país adoecido pelo arbítrio. As canções da Plebe eram de protesto, um protesto literal, sem matéforas, sem indiretas. Eram recados explícitos sobre opressão, precariedade e a distância entre o Brasil oficial e o Brasil de verdade. Essa distância não encolheu. O concreto abriu, mas não desabou — e talvez seja exatamente isso que mantém o disco vivo: ele canta uma ferida que ainda dói.

A Plebe Rude nunca foi uma banda de comportamento previsível. Encerrou as atividades em 1994 sem alarde e voltou em 1999 — com a mesma formação original, o que no rock nacional é quase um milagre. Desde então, a banda resiste numa espécie de existência paralela ao mainstream: sem concessões sonoras, sem relançamentos estratégicos, sem feat com quem não tem nada a ver. O show no Circo Voador é a estreia de uma turnê dupla — 45 anos de banda, 40 anos do disco — e o set promete tocar "O Concreto Já Rachou" na íntegra, seguido de outros clássicos de uma carreira coerente desde o berço, sem concessões. A faixa "Minha Renda" é a que mais sintetiza essa postura questionadora e leibertária da banda ao narrar os impasses entre um artista musical e sua gravadora.

Toda essa trajetória, marcada por diversos recomeços, pode ser conferida no documentário "A Plebe é Rude", de Diego Da Costa e Hiro Ishikawa. Co-produzido pelo Canal Brasil, o longa começa em uma Brasília ainda vazia de gente e programação, até se tornar um dos polos geradores de bandas na era do rock brasileiro. Vale a pena assistir.

A noite começa antes, com Fausto Fawcett e Animakina. Cantor, letrista, poeta e artista visual, Fausto construiu nos anos 1980 e 1990 um universo próprio a partir do Rio de Janeiro: o cyber-funk carioca, o spoken word, uma ficção científica de calçada que misturava tecnologia e favela muito antes de isso ser tendência. Animakina é o que ele chama de "um baile futurista e literário, um Baile da Ilha Fiscal da Perturbação Tecnológica" — e o repertório dá conta do recado, com "Kátia Flávia", "Rio 40 Graus", "Santa Clara Poltergeist" e "Androide Nissei" dividindo espaço com crônicas recentes em spoken word. Ao lado de Paulo Beto (sintetizadores), Mari Crestani (vocais, baixo e saxofone) e Jodele Larcher (audiovisual), Fausto prova que continua sendo um artista em permanente estado de invenção e inquietude.

Entre um show e outro — e depois de tudo — DJ Edinho garante que o rock não pare. Os portões do Circo se abrem às 20h.

SERVIÇO

PLEBE RUDE - O CONCRETO JÁ RACHOU 40 ANOS

Abertura: Fausto Fawcett (Animakina)

Circo Voador (Rua dos Arcos s/nº - Lapa)

27/2, a partir das 20h (abertura dos portões)

Ingressos a partir de R$ 80