Lembro-me. Em 2019, campeã com o enredo "História pra ninar gente grande", desenvolvido pelo carnavalesco Leandro Vieira, a Mangueira riu de heróis da nação. Marcelo Crivella, prefeito que não repassou verba às escolas de samba, provocou a realização de um carnaval crítico a Pedro Álvares Cabral, Dom Pedro I...
Mas, após a festa de Momo, foliões das periferias do Rio de Janeiro voltaram a se fantasiar de realismo social em seus barracos, localizados em favelas onde o poder público não desfila com a bandeira do saneamento básico, com o abre-alas da segurança, com os adereços da saúde, poque quem ri e brinca agora, após o carnaval, é o mesmo grupo político que entra na Avenida Eleições a cada quatro anos, diga-se, mascarado com o mesmo rosto de "Eu digo a Verdade".
A alegria dos humildes da Marquês de Sapucaí nunca se transformou em maioria absoluta na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, ou seja, jamais se afirmou com políticas públicas contínuas no tempo e no espaço, razão de a porta-bandeira da agremiação, após o Carnaval, não colocar sua filha na creche, mesmo porque nem creche existe onde ela mora. Se a alegria de três dias morre no sambódromo, o deputado estadual da Cidade Maravilhosa, votado ao som da urna eletrônica, pula de alegria o ano todo, pois o parlamentar folião legisla em causa própria.
Assim, aos pés do Cristo Redentor, braços abertos formaram a cruz ou o sacrifício de uma Sapucaí que, em 1989, cantou "Ratos e urubus, larguem minha fantasia". Foi quando o Cristo Mendigo, coberto por sacos de lixo, virou a mesa contra a injustiça social. Já faz 37 anos que a miséria, indiferente à pele, entulha seu peso em rostos negros e brancos. Segundo o IBGE de 2024-2025, a miséria e a pobreza cariocas, exprimidas entre as belezas do mar e das montanhas, totalizam 3,86 milhões de humanos, ou seja, 22% da população do Estado. Somos mais de 8 mil em situação de rua.
Até hoje, ratos e urubus não largam a fantasia de quem deseja justiça social. O gênio Joãozinho Trinta perdeu. O problema agudo e vital do Rio de Janeiro ainda é a miséria, ainda é a pobreza. Com dinheiro emprestado da patroa, Maria da Silva de Jesus, mãe de quatro filhos, pagou 200 reais para ficar de pé no pior e no mais barato setor da Sapucaí. Após a alegria desfilar, Maria voltará para casa num trem lotado de eleitores. Última estação, Japeri, na Chacrinha, rua São Sebastião, onde não há creche. A filha de 10 anos sempre toma conta dos irmãos.