Por: Affonso Nunes

Arlindinho canta os enredos de uma vida

Arlindinho durante a gravação do audiovisual em que interpreta grandes sambas-enredo do carnaval carioca | Foto: B. Miúra/Divulgação

O cantor e compositor apresenta a primeira parte do seu novo audiovisual, intitulado 'Minha Vida é um Enredo', gravado no Baródromo, espaço tradicional dos apaixonados por samba e carnaval

Filho do inesquecível Arlindo Cruz (1958-2025) e criado entre rodas de samba, instrumentos e o fervor das escolas de samba, Arlindinho sempre soube que seu destino estava entrelaçado ao carnaval. Aos 33 anos, o cantor, compositor e multi-instrumentista lança a primeira parte de "Minha Vida é um Enredo", projeto audiovisual que celebra a força e a poesia dos sambas-enredos que marcaram época.

Gravado no Baródromo, reduto tradicional do samba e do carnaval carioca, o projeto traz um repertório cuidadosamente selecionado. São nove sambas-enredos que vão de 2006 a 2024, incluindo composições autorais de Arlindinho, releituras de clássicos imortalizados pelas agremiações cariocas e, especialmente, homenagens ao trabalho do pai, cuja trajetória como compositor e intérprete consolidou-se como uma das mais importantes da música brasileira. A direção musical ficou sob responsabilidade de Tomaz Miranda.

Abrem o trabalho composições recentes como "Fala, Majeté! Sete Chaves de Exu", samba-enredo da Grande Rio de 2022, e "Ô Zeca, o pagode onde é que é?", também da mesma escola, de 2023. Na sequência, Arlindinho revisita "O Império do Divino", da Império Serrano de 2006, enredo que traz a assinatura de Arlindo Cruz. O repertório segue com "Hutukara", do Salgueiro de 2024, tema que aborda a cosmologia yanomami, e "Você semba lá… que eu sambo cá! O canto livre de Angola", da Vila Isabel de 2012, que celebra as raízes africanas do samba.

Arlindinho também resgatou "Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro dos sonhos impossíveis", da União da Ilha de 2010, e "Dona Ivone Lara: o enredo do meu samba", da Império Serrano de 2012, uma reverência à primeira-dama do samba. Completam o set "A incrível história do homem que só tinha medo da Matinta Pereira, da Tocandira e da Onça Pé de Boi!", da São Clemente de 2015, enredo que mistura folclore e humor, e "Poemas aos Peregrinos da Fé", também da Império Serrano, de 2015, encerrando a primeira parte com poesia e espiritualidade.

Para Arlindinho, esta produção é a realização de um desejo antigo. "Esse projeto é mais um sonho realizado. Como já disse em várias entrevistas, o meu primeiro desejo como cantor era ser intérprete de samba-enredo, então hoje poder ter subido no palco e cantado vários sambas meus e de referências minhas é como um sonho de menino se realizando", declarou o artista, emocionado com o resultado do trabalho.

Apadrinhado artisticamente por nomes de peso do samba carioca e tendo crescido observando o pai compor e tocar, Arlindinho desenvolveu uma relação orgânica com a música, que se traduziu em uma carreira sólida iniciada há mais de uma década.

Com trabalhos anteriores como "2 Arlindos", de 2017, e "Das Antigas (Ao Vivo No Beco Do Rato)", lançado recentemente em 2025, o cantor vem construindo uma trajetória que equilibra respeito à tradição e renovação do samba. Sua atuação como multi-instrumentista também amplia as possibilidades criativas, permitindo que transite com desenvoltura entre diferentes vertentes do gênero, do samba de raiz ao samba-enredo, do pagode às composições mais autorais.

Arlindinho reafirma seu lugar como uma das vozes mais importantes da nova geração do samba carioca, honrando o legado paterno e, ao mesmo tempo, caminhando com as próprias pernas. Ainda não há previsão para o lançamento da segunda parte do audiovisual.