Por: Affonso Nunes

A arte de cantar (bem)

O MPB4 apresenta há décadas um repertório com a fina flor da nossa canção popular | Foto: Leo Aversa/Divulgação

MPB4 retorna ao Rival Petrobras em duas noites de celabração ao melhor de nossa canção popular

O Teatro Rival Petrobras volta a receber neste sábado e domingo (31 e 1º) um dos grupos vocais mais longevos e respeitados da música brasileira. Com mais de seis décadas de trajetória, o MPB4 apresenta o espetáculo "MPB4 e Rival - A arte de cantar", uma apresentação presta tributo a Angela Leal, figura visionária que abriu as cortinas do Rival para a MPB e transformou o histórico teatro da Cinelândia num dos principais pontos de encontro da cultura carioca. No sábado, o grupo terá a participação espcial do grupo vocal Ordinarius (um dos tantos influenciados pelo MPB4) e no domingo será a vaez do cantor e composotor Tiago Amud, um dos mais festejados artistas de sua geração.

Formado atualmente por Miltinho, Aquiles Reis, Dalmo Medeiros e Paulo Malaguti Pauleira, o MPB4 carrega consigo uma história que atravessa gerações e perpassa todos os momentos políticos vividos pelo país nesse período. Nascido em 1965, no início da ditadura militar, o grupo surgiu da união de quatro jovens que cantavam em corais universitários e encontraram na harmonia vocal sua forma de resistir. A formação original, que se manteve por quatro décadas, incluía Ruy Faria, Magro Waghabi, Aquiles e Miltinho. Foi um dos períodos de maior estabilidade e reconhecimento artístico de um conjunto vocal no Brasil, conquistando público e crítica com interpretações sofisticadas que iam da bossa nova e do samba à canção de protesto, passando por vários ritmos. Em comum, a excelência vocal e a sofisticação musical.

Quando a censura atingia duramente a produção artística, o MPB4 encontrou nas entrelinhas das harmonias vocais e na escolha criteriosa de repertório que expressasse a defesa intranbsigentes dos valores democráticos. canções como "Roda Viva" (Chico Buarque), "Amigo É Pra Essas Coisas" (Aldir Blanc e João Bosco), "Vira Virou" (Kleiton & Kledir), "A Lua" (Renato Rocha), "Cálice" (Chico Buarque e Gilberto Gil) ganharam do grupo interpretações definitivas e que são páginas de ouro a história de nossa música.

O repertório do espetáculo se ancora em dois álbuns fundamentais para compreender a relação do grupo com o Teatro Rival: "A Arte de Cantar", de 1995, e "MPB4 ao Vivo - Melhores Momentos", de 1999, ambos gravados no palco do Rival. O roteiro propõe uma viagem temporal que resgata momentos emblemáticos dessa parceria de mais de três décadas. O público será conduzido a 1992, ano do aclamado "Brasil de A a Z", espetáculo que percorreu o alfabeto da música brasileira com maestria interpretativa.

A apresentação também revisita 1995, quando o quarteto gravou no Rival o disco que celebrava seus 30 anos de estrada, e 2012, com o show "Contigo Aprendi", marco que representou um dos momentos mais delicados e transformadores da história do grupo.

Aquele ano de 2012 ficou gravado na memória do MPB4 e de seus admiradores como um divisor de águas. O grupo perdia Magro Waghabi, vítima de câncer aos 68 anos, interrompendo uma formação que havia resistido por décadas aos desafios da indústria fonográfica e das mudanças de gosto do público.

Substituir um integrante que havia ajudado a moldar a identidade sonora do quarteto era um desafio técnico e, sobretudo, emocional. Coube a Paulo Malaguti Pauleira, cantor, compositor e arranjador com passagem pelo grupo Céu da Boca e pelo Arranco de Varsóvia, assumir essa responsabilidade. Sua estreia oficial no Teatro Rival, naquele 2012, selou a renovação e garantiu a continuidade de um projeto artístico singular na música brasileira.

A relevância artística do MPB4 está muito além dos números e de sua longevidade. O quarteto se estabeleceu como referência de qualidade interpretativa, sendo reconhecido pela capacidade de harmonizar vozes com precisão técnica sem perder a emoção e a espontaneidade.

Nesses 60 anos, o MPB4 gravou dezenas de álbuns, participou de festivais decisivos para a música brasileira e dividiu palco com os maiores nomes da MPB. Mais do que isso, o MPB4 se tornou guardião de um repertório que vai de Noel Rosa a Tom Jobim, de Chico Buarque a Milton Nascimento, mantendo viva uma tradição de máximo respeito ao cancioneiro popular.

SERVIÇO

MPB4 E RIVAL - A ARTE DE CANTAR

Teatro Rival Petrobras (Rua Álvaro Alvim, 33, Cinelândia)

31/1 e 1/2, sábado (19h30) e domingo (17h)

Ingressos a partir de R$ 50