Por: Affonso Nunes

Pérola wisnikiana com a grife dos Veloso

Caetano e Tom Veloso regravam canção que foi sucesso na voz de Zizi Possi | Foto: Divulgação

Parceria entre Caetano e Tom registra a lindíssima 'Mais Simples', que integra projeto do compositor e ensaísta paulista com diferentes intérpretes

Trinta anos após o desejo inicial, Caetano Veloso finalmente grava "Mais Simples", canção de José Miguel Wisnik que o sensibilizou desde o primeiro momento em que a ouviu nos anos 1990. O single, registrado em parceria com o filho Tom Veloso ao violão, integra um novo projeto do compositor paulista que será lançado eeste ano, reunindo diferentes intérpretes em suas composições. A gravação representa o reencontro de Caetano com uma música que marcou época na voz de Zizi Possi, que deu nome a um disco inteiro em 1996.

Paulista de São Vicente, Wisnik construiu uma trajetória singular na cena musical. Professor aposentado de literatura brasileira pela Universidade de São Paulo, pianista, compositor e ensaísta, o artista transita com maestria entre a reflexão teórica e a criação artística. Autor de obras fundamentais como "O Som e o Sentido" e "Veneno Remédio: O Futebol e o Brasil", ele mantém um diálogo permanente entre música e literatura, tendo colaborado com nomes centrais da MPB ao longo de décadas.

"Mais Simples" surgiu originalmente no álbum de estreia de Wisnik em 1993, gravada em parceria com Ná Ozzetti. Seus versos que exploram a complexidade do amor ("É sobre-humano amar/ cê sabe muito bem/ É sobre-humano amar sentir doer/ Gozar/ Ser feliz"). A composição ganhou notoriedade na interpretação de Zizi Possi três anos depois. Quando Caetano pensou em registrá-la nos anos 1990, a ideia acabou adiada. Décadas depois, o próprio Wisnik convidou o baiano para concretizar o antigo desejo, inaugurando o projeto que revisita seu magnífico cancioneiro.

"Muito bom poder ter gravado 'Mais simples'. Uma canção que adoro desde que ouvi pela primeira vez, uma canção única. O violão de Tom me deslumbrou. Ele nem sabe quanto. Acho que isso aconteceu porque Zé Miguel é um santo da música", abençoa Caetano. A gravação, realizada no segundo semestre de 2025 no estúdio da casa do cantor, contou com produção de Lucas Nunes. A intimidade musical entre pai e filho reverencia esta bela canção através de uma interpretação despojada e profunda.

"A gravação veio afinal quando tinha que ser... por uma conjunção, difícil de resumir, de desejos, de pessoas e dos astros", afirma o compositor. "Fico sem palavras ao ouvir essa interpretação, mas confesso que não sinto necessidade delas. Pois foi o próprio indizível que compareceu, e disse tudo", acrescenta, classificando a versão como expressiva e definitiva. O autor reconhece na interpretação de Caetano e Tom a extração do "sumo essencial" da canção, aquilo que transcende as palavras e toca o território da emoção pura.