Por: Affonso Nunes

Nara e a bossa

Nara Leão surge como voz feminina da bossa nova mas inova ao longo da carreira | Foto: Fotos/Reprodução

Gravação esquecida da cantora em fita cassete por cerca de 50 anos é restaurada no álbum 'A Bossa Rara de Nara', já nas plataformas digitais

Uma faxina rotineira e despretensiosa num estúdio de gravações revelou um tesouro musical que se acreditava perdido. Ao revisar o conteúdo de antigos armários no espaço que divide com Roberto Menescal, o produtor Raymundo Bittencourt se deparou com uma fita cassete empoeirada, rotulada apenas com o nome "Nara". O pressentimento logo se confirmou: eram gravações inéditas de Nara Leão, a musa da bossa nova, interpretando alguns dos maiores clássicos do movimento que revolucionou a música brasileira nos anos 1950 e 1960. Esse material, estimado em cerca de 50 anos de idade, acaba de ganhar vida nova no álbum "A Bossa Rara de Nara Leão", disponibilizado pela Universal Music Brasil nas plataformas de streaming.

 

Macaque in the trees
A Bossa Rara de Nara Leão | Foto: Divulgação

A voz suave que fez muito barulho

Nara Leão e Roberto Menescal em imagem dos anos 1970 | Foto: Divulgação

A descoberta aconteceu quase por acaso. "Eu e meu assistente decidimos ver um monte de coisas que estavam nos armários. Fita cassete velha, DAT, fitas de duas polegadas. Não tem mais nem onde tocar isso. O Marquinho achou uma fita, rotulada como 'Nara'. Bom, a única Nara que eu conheço é a Nara Leão. Vamos dar uma ouvida", recorda Bittencourt. Dela surgiu a voz inconfundível da cantora com um violão quase inaudível ao fundo. Era uma fita-guia, usada para de base para gravações mais elaboradas. Mas a fita estava em péssimo estado de conservação. "Nós pegamos as faixas que estavam melhores. Foi uma trabalheira para equalizar", comenta o produtor, que nunca trabalhou diretamente com Nara, diferentemente de Menescal, que fez inúmeros discos e shows com ela ao longo da carreira.

Curiosamente, nem mesmo o veterano músico lendário violonista tem registro da origem exata dessas gravações. "Pelo que o Menescal me falou, deve ser de alguma coisa que ele estava produzindo. Uma sessão de músicas que a Nara gravou em outros projetos. Não temos referência nenhuma, de quando, onde e como o material foi gravado. Se o Menescal não sabe, eu muito menos", brinca o produtor.

Nascida em 1942 no seio da burguesia de Copacabana, Nara fez de seu apartamento uma espécie de quartel-general da bossa nova no final dos anos 1950, onde João Gilberto, Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Carlos Lyra e tantos outros se reuniam para criar o novo som. Mas sua importância vai muito além de anfitriã do movimento. Foi pioneira ao romper com o padrão vocal vigente, adotando uma voz suave, intimista e despojada que encarnava a proposta minimalista daquele som que seria batizado como bossa nova. Seu álbum de estreia, "Nara", de 1964, já demonstrava outro traço vanguardista: a abertura para compositores de origem popular como Zé Kéti, Cartola e Nelson Cavaquinho, aproximando a bossa da classe média carioca e o samba dos morros. Foi ainda a estrela do musical "Opinião", um marco da resistência cultural contra a recém-implantada ditadura militar.

Nos anos seguintes, Nara radicalizaria ainda mais, tornando-se uma das principais vozes da canção de protesto contra o regime dos generais, gravando músicos nordestinos como Edu Lobo e Geraldo Vandré e participando ativamente dos festivais da Record.

Seu vanguardismo estava também na escolha de repertório eclético, do samba de raiz ao rock, passando pelo tropicalismo e pela MPB engajada, sempre com extremo bom gosto e refinamento estético. Morta prematuramente em 1989, aos 47 anos, Nara deixou um legado de coragem artística e inquietação criativa.

Macaque in the trees
Nara com Chico Buarque | Foto: Reprodução

O trabalho de restauro foi minucioso e demorado. "Eu só tinha voz e um violão longe, que você não consegue ouvir direito. Demorou quase uma semana para limpar o som", conta. A partir daí, o produtor criou novos arranjos e reuniu uma banda de músicos de sua confiança: Diógenes de Souza (baixo), Leandro Freixo (teclados e flauta) e João Cortez (bateria), além do próprio Bittencourt ao violão. "Esse pessoal trabalha comigo há bastante tempo, pelo menos há uns dez anos. São excelentes. Não é um pessoal que chega, toca, pega o dinheiro e vai embora. Eles gostam de tocar, gostam do que eu faço e querem participar. O Diógenes me ajuda a escrever os arranjos, porque sou autodidata", destaca o produtor. Menescal fez questão de participar do projeto gravando sutis vocais em duas faixas: "Chega de Saudade" e "O Barquinho".

O repertório é uma aula de história da bossa nova e surpreende porque sinalizava uma reaproximação da cantora com o movimento. O primeiro single escolhido foi "Chega de Saudade", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, lançado em 19 de janeiro, aniversário de Nara. A canção, imortalizada por João Gilberto em 1958 num 78 rotações que inaugurou um novo estilo de canto e acompanhamento, é considerada o marco inicial do movimento. Entre as outras sete faixas, destacam-se "Manhã de Carnaval" (Luiz Bonfá e Antonio Maria), que ganhou o mundo na trilha sonora de "Orfeu Negro" em 1959, e "O Barquinho" (parceria de Menescal com Ronaldo Bôscoli, ex-namorado de Nara), cuja versão agora descoberta soa mais suave e solar que a célebre interpretação de Maysa em 1961.

Há também "Você e Eu", clássico de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra de 1961, música em que Nara estreou como cantora no disco "Depois do Carnaval", de Lyra, em 1963. O padrinho musical ajudaria Nara de forma intensa no ano seguinte, quando ela gravou seu álbum de estreia, "Nara", pela Elenco. Desse disco vem outra pérola do novo álbum: "Diz que Fui por Aí", samba de Zé Kéti que Nara transformou em bossa nova em sua versão original. Completam o repertório "Tristeza de Nós Dois" (Durval Ferreira, Maurício Einhorn e Bebeto Castilho), de 1960, e duas joias de Tom Jobim: "Fotografia", lançada por Sylvia Telles em 1959 e regravada por Nara em dueto com o próprio maestro em 1977, e "Wave", composta instrumentalmente em 1967 e depois ganhando letra em português que Tom desenvolveu a partir de um único verso enviado por Chico Buarque.

Macaque in the trees
A cantora rompeu com escola que ajudou a fundar e abraçou outros estilos musicais | Foto: Reprodução

"Tentei atrapalhar em nada ela cantando, fiz apenas um acompanhamento", reconhece o produtor. O resultado é um álbum que traz de volta a voz ímpar de uma das nossas vozes mais queridas numa feliz reconciliação com o movimento que a revelou para o mundo.