Affonso Nunes
Poetas carregam consigo uma relação diferenciada com o tempo. Pudera. Pois a poesia não tem lugar ou tempo específicos. Com Chico César não é diferente. Trinta anos o separam do lançamento de "Cuscuz Clã", o álbum que transformou sua trajetória e o levou da cena underground paulistana aos palcos do Brasil e do mundo. Neste sábado (24), o bardo de Catolé do Rocha (PB) sobe ao palco do Circo Voador para revisitar esse marco discográfico que coincide com a celebração de seu aniversário (26/1). Já virou hábito o cantor e compositor se apresentar no Circo no mês em que completa anos. A noite terá abertura da também paraibana Luana Flores e DJ set de Túlio Baía.
Lançado em 1996 como primeiro álbum de estúdio de Chico César - que estreara na carreira com o registro ao vivo "Aos Vivos", de voz e violão -, "Cuscuz Clã" consolidou a identidade artística do músico ao propor uma fusão ousada entre baião, pop, rock, forró e poesia nordestina. A produção, assinada por Marcos Mazzola, reuniu músicos de expressão internacional como o baixista sul-africano Bakhiti Kumalo, conhecido por seu trabalho com Paul Simon, além dos percussionistas Naná Vasconcelos e o argentino Ramiro Musoto. A base do disco foi gravada com a banda que já acompanhava Chico em suas apresentações paulistanas no Bambu Brasil e no Blen Blen Club.
O próprio título do trabalho carrega camadas de significado.
"O disco leva inclusive o nome da banda, trazendo a ideia de muita mistura com essência brasileira e intrinsecamente nordestina. Trazendo aí também uma crítica ao racismo e os apartheids em geral", explica o cantor e compositor.
A sonoridade pop e cosmopolita do álbum surpreendeu parte do público que havia se conectado com o intimismo acústico de seu trabalho anterior. "A sonoridade pop, claro, assustou alguns ouvintes do álbum anterior - o 'Aos Vivos', de voz e violão, mas eu estava em busca mesmo de algo diferente em termos de sonoridade, tentando seguir os passos dos mestres africanos como Salif Keita, Youssou N'Dour, Papa Wemba, Fela Kuti. E de mestres brasileiros como Gilberto Gil e Jorge Ben Jor. Música afro-brasileira com celebração do corpo através da dança", conta Chico.
O repertório do disco inclui regravações em formato de banda de "À Primeira Vista", com percussão de Naná Vasconcelos, e "Mama África", que conta com o baixo de Bakhiti Kumalo. Entre as faixas que chegaram com força renovada estão "Mand'Ela", "You Yuri" e "Pedra de Responsa". O álbum também reserva espaço para momentos intimistas como "Isso", "Esta" e "Anjo da Vanguarda", esta última com participação do guitarrista Lanny Gordin, que já havia colaborado em "Aos Vivos".
Sobre o impacto do disco em sua carreira, Chico César é categórico: "Esse disco me nacionalizou e também internacionalizou meu trabalho. Com ele saí da cena underground de São Paulo, com raras aparições em outras capitais do país, para rodar todo o Brasil. E logo os festivais de world music de todo o mundo. Foi um aprendizado completo a começar pela produção no Rio de Janeiro".
De fato, "Cuscuz Clã" foi o passaporte que projetou o músico paraibano para além dos circuitos alternativos, estabelecendo-o como um dos nomes relevantes da MPB.
No show deste sábado, além de revisitar todas as canções do álbum comemorativo, Chico César deve incluir outros destaques de seu repertório. Antes da apresentação principal, a conterrânea Luana Flores abre a noite com seu projeto "Nordeste Futurista". Beatmaker, DJ, percussionista, cantora e compositora, Luana propõe um diálogo entre ritmos da cultura popular nordestina e sonoridades eletrônicas, abordando temáticas contemporâneas como gênero, sexualidade e território. Após o show, o DJ Túlio Baía comanda a pista.
SERVIÇO
CHICO CÉSAR | 30 ANOS DE CUSCUZ CLÃ
Circo Voador (Rua dos Arcos, s/nº, Lapa)
24/1, a partir das 20h (abertura dos portões)
Ingressos a partir de R$ 160 e R$ 80 (meia)