Por: Affonso Nunes

Eternamente Bethânia

Maria Bethânia durante show da turnê dos 60 anos de carreira, no Tokio Marine Hall, em São Paulo | Foto: Rafaela Araújo /Folhapress

Cantora retorna ao Vivo Rio para duas datas extras de turnê comemorativa de 60 anos de carreira, consolidando sua posição como maior voz feminina viva da MPB

Maria Bethânia volta ao palco do Vivo Rio neste fim de semana para duas apresentações extras de sua turnê comemorativa de seis décadas de carreira. Os shows acontecem sábado (17), às 19h, e domingo (18), às 18h, dando início à reta final de uma temporada consagradora iniciada em setembro passado e que lotou casas de espetáculo pelo Brasil. E desta vez não será diferente, pois os ingeressos para sábado estão esgotados e restam poucos para domingo. A presença de Bethânia, sua voz e seu carisma nos palcos é uma dádiva, uma prece de amor à canção brasileira.

Uma voz liberta que encanta o Brasil

Em fevereiro de 1965, Maria Bethânia estreava profissionalmente substituindo Nara Leão no histórico Show 'Opinião', cantando 'Carcará', ao lado de João do Vale e Zé Keti | Foto: Reprodução Facebook Maria Bethânia

Sessenta anos separam a jovem de Santo Amaro que pisou descalça no palco do Teatro Opinião, em Copacabana, da artista consagrada que hoje conduz plateias inteiras. Foi em 13 de fevereiro daquele ano que Maria Bethânia Viana Teles Veloso substituiu Nara Leão no espetáculo "Opinião", ao lado de João do Vale e Zé Keti, cantando "É de Manhã" e "Carcará" para um país que vivia sob o jugo da ditadura militar instalada meses antes. O coque de cabelo, a postura desafiadora e a potência dramática que imprimia às canções já anunciavam uma trajetória que rejeitaria rótulos. A tentativa de enquadrá-la como cantora de protesto logo se revelou insuficiente para definir uma artista que sempre priorizou a liberdade de trânsito entre universos musicais.

"Voltei cantora da noite, meio cafona, com música que ninguém cantava, de um repertório romântico mais brega, de que eu sempre gostei", declarou em entrevista de 2015, explicitando escolhas que a afastaram tanto dos rigores da bossa nova quanto do rótulo tropicalista, embora tenha transitado por ambos os movimentos. "Não era nem Tropicália nem bossa nova. Ambos lindíssimos, e eu passeei bem nos dois. Mas do meu jeitinho, sem me aprisionar", afirmou a irmã de Caetano Veloso, demarcando um território artístico particular que privilegiou desde cedo os sambas-canção de amores derramados e pérolas esquecidas do repertório nacional.

Essa personalidade artística singular se manifestou já em "Recital na Boite Barroco", de 1968, mas ganhou contornos mais definidos com a incorporação progressiva da religiosidade afro-brasileira como elemento estruturante de sua obra. Filha de Oyá — também conhecida como Iansã — e iniciada por Mãe Menininha do Gantois, Bethânia gravou em 1969 "Ponto do Guerreiro Branco", inaugurando uma vertente que atravessaria toda sua discografia. Pontos de umbanda e candomblé, composições como "As Ayabas" e "Iansã" (parcerias de Caetano Veloso e Gilberto Gil) e a emblemática "Carta de Amor", do disco "Oásis de Bethânia" (2012), na qual enumera desafiadoramente santos, orixás e espíritos indígenas, materializam as múltiplas ancestralidades brasileiras que alimentam seu canto.

A dimensão cênica dessa artista, evidente desde a estreia no Opinião, se consolidou na parceria com o diretor Fauzi Arap (1938-2013), responsável por desenvolver a linguagem que se tornou assinatura da cantora: roteiros que entrelaçam textos literários e canções, explorando ao máximo sua dramaticidade natural. Iniciada em "Comigo me Desavim" (1967), essa abordagem ganhou maturidade nos anos 1970 com espetáculos antológicos como "Rosa dos Ventos" (1971), "A Cena Muda" (1974) e "Pássaro da Manhã" (1977). É justamente essa sinergia entre música e dramaturgia que estrutura o show atual, tendo como principais referências "Rosa dos Ventos" e "A Cena Muda", mas trazendo também composições inéditas intercaladas aos clássicos do repertório bethâniano.

Macaque in the trees
Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia e Caetano Veloso: os Doces Bárbaros | Foto: Walter Firmo

A trajetória solo, vigorosa e singular, não impediu momentos de partilha do palco com o irmão Caetano e os amigos Gilberto Gil e Gal Costa nos Doces Bárbaros, grupo formado em 1976 para uma turnê comemorativa de dez anos de sucesso nas carreiras individuais dos quatro artistas. A experiência coletiva, no entanto, apenas reforçou a força de uma personalidade artística avessa a concessões estéticas.

A discografia registra esse percurso de afirmação de uma identidade musical complexa. "Mel" (1979) trouxe a canção-título — parceria de Waly Salomão e Caetano —, além de "Cheiro de Amor" e "Da Cor Brasileira". "Dezembros" (1986) apresentou sucessos como "Anos Dourados", de Tom Jobim e Chico Buarque, e "Gostoso Demais", de Dominguinhos e Nando Cordel. "Memória da Pele" (1989) incluiu "Reconvexo", outra composição que Caetano escreveu especialmente para a irmã. Mas foi a partir de "Olho D'água" (1992) e, mais marcadamente, de "A Força que Nunca Seca" (1999) que Bethânia se lançou num mapeamento afetivo do Brasil interiorano que se tornaria pilar definitivo de sua obra.

Com tradução sonora do maestro Jaime Alem, parceiro musical por quase três décadas, a cantora desenhou um país que captura com seu olhar e materializa em seu canto. O exemplo mais acabado dessa proposta se deu em "Brasileirinho", disco antológico que gerou espetáculo igualmente histórico. Esse Brasil se manifesta mesmo em projetos conceituais específicos, como "As Canções Que Você Fez pra Mim" (1993), álbum de releituras definitivas do cancioneiro de Roberto e Erasmo Carlos; "Pirata" e "Mar de Sofia" (2006), dedicados às águas; "Que Falta Você me Faz" (2007), declaração de amor a Vinicius de Moraes; ou "De Santo Amaro a Xerém" (2018), parceria com Zeca Pagodinho.

 

Macaque in the trees
Mangueirense, Bethânia foi enredo da escola e ajudou a verde e rosa a sagra-se campeã | Foto: Divulgação

A Mangueira, onde foi homenageada em 2016 com o enredo "A Menina dos Olhos de Oyá" que ajudou a escola a sagrar-se campeã, encarna esse Brasil de maneira nítida em "Mangueira — A Menina dos Meus Olhos" (2019). A relação da artista com a agremiação verde e rosa simboliza o vínculo profundo que estabeleceu com as manifestações populares brasileiras, recusando hierarquias entre erudito e popular, entre sagrado e profano, entre a cantora e o terreiro.

Neste sábado (17), às 15h, o jornalista e pesquisador Paulo Henrique de Moura lança na Tropicália Discos, con Centro, o livro "Maria Bethânia, primeiros anos - da cena cultural baiana ao teatro musical brasileiro" (Ed. Letra e Voz), resultado de sua dissertação de mestrado defendida na Universidade de São Paulo (USP) em 2024.

Celebrada em documentários como "Música é Perfume" (2005) e "Fevereiros" (2017), Bethânia completará 80 em junho mantendo a voz potente e a presença magnética que fizeram dela uma das artistas mais relevantes do país.

SERVIÇO

MARIA BETHÂNIA - 60 ANOS

Vivo Rio (Av. Infante Dom Henrique, 85, Parque do Flamengo)

17 e 18/1, sábado (19h)* e domingo (18)

Ingressos a partir de R$ 270 (pista)