Por: Affonso Nunes

Quando choro encontra o Caribe

Zé Paulo Becker lança novo álbum no Manouche | Foto: Rodrigo Lopes/Divulgação

Zé Paulo Becker lança "Choro Y Salsa" após viagem a Havana e encontro com Ailton Krenak, fundindo tradição brasileira com ritmos caribenhos

O violonista carioca Zé Paulo Becker celebra em janeiro o lançamento de "Choro Y Salsa", seu 12º álbum solo que marca uma virada cosmopolita em sua trajetória. O disco, que chega às plataformas digitais em fevereiro de 2025, é fruto de uma experiência transformadora vivida pelo músico em Havana, onde esteve a convite do Itamaraty para apresentar-se na Feira Literária da capital cubana. Ao lado do pianista gaúcho Fernando Leitzke e com participações especiais de Beth Marques e Moyseis Marques, Becker apresenta o novo trabalho no Manouche, no Jardim Botânico, nesta quinta-feira, 8 de janeiro, às 21h, num show que promete misturar sofisticação harmônica e clima festivo.

A fusão entre o choro tradicional e os ritmos caribenhos não é mero exercício estilístico. Durante sua estadia em Cuba, Becker mergulhou na atmosfera da música local, absorvendo as nuances da salsa, do bolero e da guajira. Dessa imersão nasceram doze composições originais que dialogam organicamente entre duas das mais ricas tradições musicais das Américas. O álbum abre com "Um Mojito com Krenak", uma salsa dedicada ao líder indígena, ambientalista e imortal da Academia Brasileira de Letras Ailton Krenak, com quem o violonista estabeleceu amizade durante a viagem. A homenagem musical foi bem recebida pelo pensador, consolidando uma parceria entre sensibilidades artísticas e engajamento cultural.

O repertório do disco reflete essa ponte sonora entre Brasil e Caribe. "Guajira Carioca" e "De Buick no Malecón" nasceram da experiência cubana, mesclando a levada do choro brasileiro com a cadência dos ritmos caribenhos. Completam o álbum faixas como "Carrilhana", "Choro Mambo", "Choro na Varanda", "Descendo a Ripa", "Habana Vieja", "Todo Saliente" e "Um Piano na Sala", que dão título à atmosfera dançante e improvisativa da proposta. Apesar das influências estrangeiras, Becker mantém como eixo estrutural a harmonia característica do choro e da música popular brasileira, adicionando camadas de complexidade com arranjos sofisticados que transitam entre o intimismo camerístico e a explosão rítmica latina.

A gravação do álbum contou com uma constelação de instrumentistas do cenário brasileiro: Silvério Pontes e Aquiles Moraes no trompete, Kiko Horta no acordeão, Pedro Franco no bandolim, além de Bernardo Aguiar, Netinho Albuquerque, Antônio Guerra, Luizinho Barcellos, Rodrigo Jesus e Alessandro Cardozo. As sessões ocorreram no home studio do próprio Becker, com mixagem assinada por Guto Wirtti, que também contribuiu com baixo acústico em algumas faixas. A capa do disco traz uma fotografia de Rodrigo Lopes que captura o espírito da obra: Becker aparece dançando com seu violão, numa imagem que sintetiza a proposta de fazer o público não apenas ouvir, mas também se mover ao som das composições.

Com mais de três décadas de carreira e parcerias com nomes como Ney Matogrosso e Roberta Sá, Zé Paulo Becker consolida-se como um dos violonistas mais versáteis da música brasileira contemporânea. Sua atuação em espaços emblemáticos como o Bar Semente, no Rio de Janeiro, ajudou a formar gerações de apreciadores do choro e do violão instrumental. "Choro Y Salsa" representa um novo capítulo dessa trajetória, expandindo fronteiras sem perder as raízes. O show no Manouche promete oferecer ao público tanto as novidades do disco quanto clássicos revisitados, num formato que privilegia a improvisação e o diálogo entre os músicos em cena - característica essencial tanto do choro quanto da salsa.

SERVIÇO

ZÉ PAULO - CHORO Y SALSA

Manouche (Rua Jardim Botânico, 983) | 8/1, às 21h

Ingressos: R$ 140 e R$ 70 (meia solidária com doação de 1 kg de alimento não perecível)