Por: Affonso Nunes

Quem matou o videoclipe?

A MTV encerrou a transmissão de seus canais dedicados exclusivamente a videoclipes com "Video Killed the Radio Star", do grupo The Buggles, a mesma faixa que abriu o canal em 1981 | Foto: Reprodução

Tecnologias nascem para destronar teconologias mais antigas e assim caminha a humanidade. No último dia de 2025 a MTV encerrou a transmissão de seus canais dedicados exclusivamente a videoclipes. E a música de despedida foi "Video Killed the Radio Star" (foto), do The Buggles, justamente a faixa que inaugurou as transmissões da emissora nos Estados Unidos em 1981. E assim, sem maiores explicações da Paramount, os canais MTV Music, MTV 80s, MTV 90s, Club MTV e MTV Live saiu do ar em países como Brasil, Estados Unidos, Irlanda, França, Alemanha, Áustria, Polônia, Hungria e Austrália. Curiosamente, a canção que celebrava a vitória da imagem sobre o áudio agora testemunha o ocaso de seu próprio formato. "O vídeo matou a estrela do rádio. Na minha mente e no meu carro, não podemos voltar atrás, fomos longe demais. Imagens chegaram e partiram seu coração, a culpa é do videocassete", diz a letra, hoje epitáfio de uma era.

 

Um modelo de negócio que sucumbiu diante da revolução do streaming

Recordista mundial de exibições, 'Thriller' revolucionou o gênero usando linguagem cinematográfica | Foto: Reprodução

Oencerramento dos canais de videoclipes da MTV - lançados em 2011 como tentativa de resgate das raízes musicais da emissora - fecha um ciclo que já vinha se desenhando há anos. Segundo informações da revista Rolling Stone, nem a MTV nem sua controladora, a Paramount Skydance, revelaram oficialmente as razões para o fechamento, mas a decisão acontece em meio a uma drástica redução de custos e do quadro de funcionários da empresa, quase três meses após a fusão entre a Paramount e a Skydance.

A MTV também vem cancelando programas de longa duração, como as premiações MTV Europe Music Awards e MTV Latin Americas MIAW Awards e o reality "Catfish: The TV Show". As mudanças, no entanto, não impactam o canal principal da MTV, que segue em operação com sua programação voltada principalmente para reality shows.

O fim dos canais dedicados aos videoclipes, a razão de ser da MTV desde 1981, nos leva a um instigante debate sobre o fim de um modelo de distribuição que revolucionou a linguagem da música e moldou gerações de artistas e do próprio público em sua relação a música.

Produto televisivo

O videoclipe nasceu como produto direto da televisão segmentada e da necessidade de criar conteúdo visual para preencher horas de programação. Durante os anos 1980 e início dos 1990, a MTV transformou o formato em fenômeno cultural de primeira grandeza, catapultando diretores como Spike Jonze, Michel Gondry e Chris Cunningham e fazendo de artistas como Madonna, Michael Jackson e Duran Duran musicais de forte apelo visual. Esta ferramenta promocional forjou linguagem própria que influenciava moda, comportamento e até a própria forma de se compor músicas. A era de ouro dos videoclipes produziu verdadeiros marcos da cultura visual contemporânea.

E nenhum clipe simboliza melhor esse apogeu do que "Thriller", de Michael Jackson, lançado em 1983. Com seus 13 minutos de duração, orçamento sem precedentes e produção cinematográfica dirigida por John Landis, foi o primeiro clipe a entrar em rotação pesada na MTV, sendo exibido múltiplas vezes por hora devido à demanda avassaladora do público. O impacto foi imediato: o vídeo dobrou as vendas do álbum homônimo, que se tornaria o mais vendido de todos os tempos, e desempenhou papel crucial na quebra de barreiras raciais na emissora, que até então era criticada pela falta de diversidade em sua programação.

Em 1999, a própria MTV elegeu "Thriller" como o maior videoclipe de todos os tempos em sua lista dos "100 Maiores Videoclipes Já Feitos". Em setembro de 2024, o vídeo ultrapassou a marca de um bilhão de visualizações no YouTube, tornando Michael Jackson o único artista do século 20 com quatro videoclipes acima dessa marca. Além de seus méritos como um hino pop, "Thriller" fez história ao casar música com uma narrativa visual de inebriantes sequências cinematográficas.

O advento do YouTube em 2005 representou o primeiro grande golpe no modelo que a MTV tão bem representava. Artistas passaram a lançar seus vídeos diretamente na plataforma, contornando os intermediários televisivos e alcançando audiências globais instantaneamente. A democratização do acesso logo se revelou uma faca de dois gumes.

Por um lado, a internet permitiu que artistas independentes tivessem a mesma visibilidade potencial que grandes gravadoras. Por outro, a avalanche de conteúdo disponível tornou cada vez mais difícil destacar-se em meio ao ruído digital. Segundo dados do próprio YouTube, o funk dominou os videoclipes mais assistidos no Brasil em 2024, enquanto gêneros como gospel, forró e sertanejo também marcaram presença significativa. Revelou-se uma ampla diversidade dos gostos musicais no país e, com ela, a fragmentação das audiências.

O surgimento do TikTok apimentou o debate. A plataforma mudou a forma como músicas se tornam virais e alterou a própria estrutura dos clipes. Agora as narrativas visuais são veiculadas em trechos de 15 a 60 segundos para que possam trends e memes. E o clipe tradicional passa a funcionar muitas vezes como repositório de material para ser fragmentado e recombinado pelos usuários, perdendo sua integridade como obra fechada. Temos aqui uma transformação radical na própria concepção do que significa criar conteúdo visual para música.

Paradoxalmente, enquanto os canais dedicados a videoclipes desaparecem da televisão, a produção de conteúdo visual para música nunca foi tão intensa. Artistas continuam investindo recursos significativos em videoclipes. A diferença fundamental é que esses vídeos não são mais pensados para exibição em fluxo contínuo na televisão, mas para consumo sob demanda, compartilhamento em redes sociais e integração com estratégias multiplataforma de divulgação.

Especialistas divergem sobre o significado dessas transformações. Para alguns, o videoclipe como forma artística está em processo de extinção, substituído por conteúdos mais fragmentados e interativos que respondem melhor à lógica dos algoritmos das redes sociais.

Segundo reportagem do jornal The Guardian publicada em 2024, a visualização de videoclipes tradicionais despencou drasticamente, com artistas do calibre de Beyoncé e Drake reduzindo significativamente seus investimentos nesse formato. A matéria questiona se o TikTok teria matado o videoclipe, apontando para uma mudança de comportamento geracional nos padrões de consumo de música visual.

Há, no entanto, quem vislumbra uma metamorfose natural, na qual o videoclipe se adapta aos novos meios de distribuição sem perder sua essência como casamento entre música e imagem. Ou seja, a linguagem visual da música não desapareceu, mas se transformou, incorporando novas possibilidades técnicas e estéticas que não existiam na era da televisão.

Modelo em colapso

Uma coisa, porém, é certa. O modelo de negócio que sustentava a produção de videoclipes de alto orçamento entrou em colapso. Na era da MTV, o investimento em um videoclipe caro se justificava pela exposição massiva que a emissora proporcionava, funcionando como vitrine global para artistas e gravadoras. Com a fragmentação das audiências e a multiplicação de plataformas, calcular o retorno sobre investimento tornou-se exercício praticamente impossível já que um videoclipe pode acumular milhões de visualizações no YouTube, mas isso não se traduz necessariamente em vendas de discos, streams pagos ou ingressos de shows na mesma proporção que acontecia quando a MTV ditava os rumos da indústria musical. A monetização direta através de anúncios nas plataformas digitais raramente cobre os custos de produções elaboradas, forçando artistas e gravadoras a repensarem suas estratégias.

A questão tecnológica também não pode ser ignorada. A democratização dos meios de produção audiovisual permitiu que videoclipes sejam feitos com orçamentos infinitamente menores do que era possível nos anos 1990, mas também banalizou a linguagem visual. Quando qualquer pessoa com um smartphone pode produzir e distribuir conteúdo audiovisual, o videoclipe perde parte de seu status como produto cultural diferenciado. E, finalente, a profusão de conteúdo gerado por usuários, lyric videos, visualizers e outros formatos híbridos embaralha as fronteiras entre o que é e o que não é um videoclipe, tornando a própria definição do formato cada vez mais fluida e contestada.

E fica uma pergunta em aberto sobre o futuro da relação entre música e imagem em movimento. Se o videoclipe como o conhecemos está morrendo, o que está nascendo em seu lugar? Essa respostas ainda está sendo escrita nas telas de milhões de smartphones ao redor do mundo.

Os 20 maiores clipes de todos os tempos*

A vinheta do astronauta levando a bandeira da MTV ao espaço foi a mais emblemática da história do canal | Foto: Divulgação

"Thriller" - Michael Jackson (1983)

"Like a Prayer" - Madonna (1989)

"Sledgehammer" - Peter Gabriel (1986)

"November Rain" - Guns N' Roses (1992)

"Sabotage" - Beastie Boys (1994)

"Billie Jean" - Michael Jackson (1983)

"Smells Like Teen Spirit" - Nirvana (1991)

"Vogue" - Madonna (1990)

"Hey Ya!" - OutKast (2003)

"Waterfalls" - TLC (1995)

"Fight For Your Right" - Beastie Boys (1987)

"Sweet Child o' Mine" - Guns N' Roses (1988)

"Black or White" - Michael Jackson (1991)

"Bitter Sweet Symphony" - The Verve (1997)

"Praise You" - Fatboy Slim (1999)

"The Way You Make Me Feel" - Michael Jackson (1987)

"Fighter" - Christina Aguilera (2003)

"Take On Me" - a-ha (1985)

"Get Ur Freak On" - Missy Elliott (2001)

"Fell in Love with a Girl" - The White Stripes (2002)

w*Fonte: MTV

MTV Brasil consolidou o BRock

A MTV Brasil, que estreou em 20 de outubro de 1990, desempenhou papel fundamental na explosão do rock brasileiro durante os anos 1990 e início dos 2000. A emissora não apenas exibia videoclipes, mas se tornou plataforma essencial para a divulgação e consolidação do movimento que ficou conhecido como BRock que explodira uma década antes com bandas como Barão Vermelho, Paralamas do Sicesso, Legião Urbana, Titãs, Blitz e Jid Abelha, entre outras.

A versão brasileira da MTV pavimentou os caminhos de uma segunda geração de bandas como Chico Science & Nação Zumbi Skank, Charlie Brown Jr., Jota Quest, O Rappa, Raimundos, Pato Fu e Los Hermanos quer tiveram na emissora - trazida aos país pelo Grupo Abril - um espaço privilegiado para alavancar suas carreiras.

A MTV Brasil promovia eventos como o Rockgol (campeonato de futebol entre bandas), o VMB (Video Music Brasil) e programas especiais que aproximavam artistas do público, criando uma cultura participativa única. A interatividade era marca registrada: telespectadores podiam votar em videoclipes pelo telefone no programa Disk MTV, ajudando a popularizar as bandas e democratizando o acesso à fama.

Os VJs da MTV Brasil se tornaram verdadeiros ícones culturais, influenciando não apenas o consumo de música, mas também moda, comportamento e linguagem de toda uma geração. Entre os mais memoráveis estava Thunderbird, conhecido por seu estilo irreverente e despojado. Completam a lista Zeca Camargo, Gastão Moreira, Penélope Nova, Fábio Massari, Astrid Fonetnelle, Fê Paes Leme, Sarah Oliveira, Edgard Piccoli, Maria Paula, Marcelo Adnet, Luisa Mell, Marcos Mion, Didi Wagner, Cazé Peçanha, João Gordo e André Piunti, cada um contribuindo com seu estilo único para a identidade de uma emissora plural que deixa saudades.

A morte dos canais de videoclipes da MTV deixa um rastro de melancolia de uma geração que cresceu tendo o canal como referência cultural central e agora vê desaparecer até mesmo os últimos vestígios daquela experiência. (A. N.)