Vinte anos separam a estreia de Roberta Sá e o lançamento de "Tudo Que Cantei Sou", seu 12º álbum e mais recente registro audiovisual. Gravado sem plateia na Casa de Francisca, em São Paulo, o projeto chegou aos aplicativos de música e ao YouTube trazendo um recorte sensível e intimista de sua carreira. Acompanhada apenas por Alaan Monteiro no bandolim e Gabriel de Aquino no violão, a cantora e compositora revisita canções fundamentais de sua discografia num formato que privilegia a essência de cada composição.
A ideia de transformar o show comemorativo em audiovisual nasceu da reação espontânea do público e da equipe que acompanhou a turnê. "Todo mundo que saía do teatro dizia: 'Você tem que gravar isso!'. A resposta foi muito bonita e espontânea", comenta Roberta. Para ela, esses registros funcionam como marcos que documentam e encerram ciclos criativos. Antes deste, vieram "Pra Se Ter Alegria - Ao Vivo no Rio", "Delírio no Circo - Ao Vivo" e "Sambasá (Ao Vivo)". "Sempre que faço um audiovisual, sinto que ele marca bem a fase que estou vivendo e me arrependo quando não faço", conta.
O repertório de 14 faixas escolhidas a dedo inclui clássicos como "Eu Sambo Mesmo" (Janet de Almeida), "Cocada" (Roque Ferreira), "Pavilhão de Espelhos" (Lula Queiroga), "Casa Pré-Fabricada" (Marcelo Camelo), "Fogo de Palha" (Roberta Sá e Gilberto Gil) e "O Lenço e o Lençol" (Gilberto Gil). O título do projeto foi inspirado por um verso de "Olho de Boi" (Rodrigo Maranhão): "O que não falei, sim / Tudo o que cantei sou".
Um dos pontos altos do álbum é o bloco dedicado à produção musical feminina, que reúne compositoras de diferentes gerações e estilos. O segmento inclui "Lavoura" (Pedro Amorim e Teresa Cristina), "Juras" (Fernando de Oliveira e Rosa Passos), "Virada" (Manu da Cuíca e Marina Irís) e "Essa Confusão" (Dora Morelenbaum e Zé Ibarra). "Se estou contando minha história, faz sentido perguntar: quais são as mulheres que me ajudam a contá-la hoje?", destaca. "Eu sou outra pessoa, completamente diferente de vinte anos atrás, e o mundo também é outro. A minha consciência sobre o feminino mudou junto", completa.
Segundo ela, é emocionante perceber como as palavras de Teresa Cristina continuam atuais, enquanto novas artistas, como Dora Morelenbaum, ajudam a renovar seu olhar e ampliar sua bagagem artística. Entre as homenagens, Roberta destaca o tributo a Rosa Passos, referência fundamental em sua formação. "Essas mulheres representam o que eu acredito que é perene, que não é passageiro, nem frívolo. São artistas com muita consistência musical, e estar próxima delas, cantando suas canções, é reafirmar o lugar da mulher na música brasileira com profundidade e verdade", afirma a cantora, que retorna aos palcos em 2026 com um espetáculo que une repertório histórico, arranjos inéditos e uma releitura contemporânea de seus 20 anos de carreira.