A cantora e compositora baiana Luedji Luna lançou "Um Mar Pra Cada Um", seu quarto álbum de estúdio, encerrando uma trilogia iniciada com "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'Água" (2020) e sua versão deluxe. O novo trabalho navega pelas nuances do desejo através de ritmos como jazz e neo-soul, contando com participações de Nubya Garcia, Liniker, Tali, Takuya Kuroda, Isaiah Shaker e Beatriz Nascimento. O trabalho veio na sequência de "Antes Que a Terra Acabe", lançado de surpresa alguns dias antes.
Aos 38 anos, a artista soteropolitana consolida sua posição como uma das principais vozes da música popular brasileira contemporânea. Reconhecida por sua militância racial e feminista, Luedji construiu uma obra que mergulha na ancestralidade afro-brasileira e agora investiga as dimensões mais íntimas do amor e da carência.
"Fiz esse disco para investigar, para além do meu desejo, a minha carência, que gera essa busca incessante", explica a artista em entrevista à Rolling Stone Brasil. "Ele surge para que eu possa curar minha versão do passado que inventava amores, pois era a única maneira de habitar o amor, e para que eu compreenda que eu sou digna de ser amada porque, assim como qualquer ser humano, sou um ser divino."
Enquanto seus discos anteriores traziam uma perspectiva mais filosófica e plural, com outras vozes de mulheres negras, este novo trabalho busca encontrar o amor divino e supremo. Luedji assume a inspiração em "A Love Supreme" de John Coltrane.
Segundo a artista, a presença massiva de instrumentos de sopro no álbum traz consigo um significado espiritual. "O sopro que anima a vida, que está presente no início de todas as coisas, na cosmogonia cristã e em tantas outras. A etimologia da palavra 'espiritualidade' vem do latim 'spiritus', que quer dizer sopro", detalha Luedji. "Ele é o veículo e o amor é a fonte originária; o fundamento de toda criação, de tudo que existe. Por isso, a primeira faixa se intitula 'Gênesis' e começa com um sax."
Canções como "Dentro Ali", "Harém", "Salty" e "Baby, Te amo" trazem as colaborações internacionais, enquanto "Gênesis" se destaca como instrumental regido pelos músicos baianos Bira Marques no piano, Bruno Mangabeira no sax, Nei Sacramento na bateria e Ângelo Santiago no contrabaixo. Uma das participações mais especiais é de Beatriz Nascimento, que recita seu próprio poema através de inteligência artificial, utilizando material de uma publicação póstuma.
Para este trabalho, Luedji aplicou em sua música parte dos processos terapêuticos nos quais se envolveu durante o último ano, utilizando propositalmente determinadas frequências e elementos de sound healing para construir a perspectiva de cura trazida pelo disco. O resultado é um álbum que busca extrapolar o terreno da música popular, explorando questões como autoconhecimento e transformação espiritual.
A artista, que ganhou projeção nacional com "Um Corpo no Mundo" (2017) e reconhecimento internacional com a indicação ao Grammy Latino por "Bom Mesmo É Estar Debaixo D'água" (2021), consolida com este lançamento sua maturidade artística e sua capacidade de transformar questões pessoais em arte universal.
Paralelamente ao lançamento principal, Luedji surpreendeu os fãs com "Antes Que a Terra Acabe", álbum inesperado com 10 faixas que conta com participações especiais de Milton Nascimento, Seu Jorge, Arthur Verocai, MC Luanna, Duda Raupp, Kato Change e Zudizilla, demonstrando a prolificidade criativa da cantora em um momento de intensa produção artística. O trabalho aborda as complexidades do amor e da condição humana, mas essas reflexões surgem emolduradas por arranjos luminosos que convidam o ouvinte à dança.
O disco navega com desenvoltura entre sonoridades que, aparentemente, não dialogam. Mas o fato é que intimidade do lo-fi convive bem com uma bossa nova repaginada. E a energia pulsante do afrobeat se encontra com as batidas características do amapiano sul-africano.
A própria artista reconhece os desafios do processo criativo. "Esses dois trabalhos foram desafiadores pela minha coragem de olhar com uma lente aumentada para própria relação com o amor e, também, pela quantidade de músicas e produtores envolvidos no processo", revela Luna, que define o trabalho com uma metáfora astrológica. "Esses dois discos são bem geminianos: mutável, dinâmico e transformador. Um espelho o outro".