Casa museu abre acervo da colecionadora e revela que, para ela, o ato de vestir-se era um gesto artístico
A Casa Museu Eva Klabin abre suas portas neste sábado (31) para uma exposição que revira gavetas, armários e baús pela primeira vez. "Beleza Habitada: Eva Klabin, Moda e Memórias" apresenta ao público mais de 130 peças do guarda-roupa pessoal da colecionadora - vestidos, sapatos, chapéus, luvas -, além de cartas, convites, menus de jantares, listas de convidados e registros sonoros de amigos e familiares. O conjunto, que permanece em cartaz até 24 de maio, sugere que a moda, para Eva, não era acessório da vida, mas parte estruturante de uma experiência estética cotidiana.
Eva Klabin colecionou arte ao longo de quatro décadas. Adquiriu peças que atravessam o Antigo Egito e chegam à modernidade do século XX. Seu acervo permanente reúne obras de diferentes geografias e linguagens. Mas a colecionadora também vestia Chanel, Christian Dior, Pierre Cardin e, sobretudo, Zulnie David, modista carioca responsável por grande parte de suas roupas entre as décadas de 1940 e 1980.
A exposição, com curadoria de Helena Severo e Brunno Almeida Maia e expografia de Leandro Leão, coloca essas duas dimensões lado a lado. "Eva Klabin habitou a beleza como quem constrói um mundo. Entre coleções de arte, vestidos e outros objetos, sua casa tornou-se cenário de encontros, onde o viver cotidiano se elevou à experiência estética", afirma Helena Severo.
A proposta curatorial organiza o percurso em cinco eixos que atravessam os ambientes da residência na zona sul carioca. O primeiro, "Afinidades sensíveis", articula a herança modernista do século XX e apresenta a coleção como uma constelação de formas, materiais e cores. Obras de Frans Krajcberg, Lasar Segall, Carlos Scliar, Paulo Roberto Leal e Emanoel Araújo dialogam com vestimentas, louças e mobiliário, sugerindo que a moda integrava, para Eva, o mesmo campo estético das artes visuais. Já "Modos de existir: Eva Klabin e o seu tempo" recria episódios da vida social da colecionadora, como o jantar oferecido ao banqueiro David Rockefeller na década de 1970, com ambiência concebida por Roberto Burle Marx. O núcleo traz documentos, pratarias e arranjos que reconstituem não apenas o evento, mas o cotidiano de uma mulher que fez da casa um espaço de encontros e diplomacia cultural.
O terceiro eixo, "Modos de colecionar", percorre a trajetória de Eva desde as primeiras aquisições realizadas em 1947, com Pietro Maria Bardi, até as últimas peças adquiridas antes de sua morte. A coleção de indumentárias aparece aqui como parte do mesmo gesto colecionador, afirmando um guarda-roupa vívido e coerente. "A singularidade do acervo de indumentária reside na capacidade que Eva possuía de conjugar criações da modista Zulnie David com nomes da moda parisiense, revelando um espírito de colecionadora e a construção de uma individualidade própria em diálogo com a história da moda de seu tempo", considera Brunno Almeida Maia.
Em "A linguagem secreta dos objetos", o foco recai sobre fragmentos da cultura material que expressam memória e subjetividade. Chapéus de Rose Valois e Gilbert Orcel, sapatos de Salvatore Ferragamo e Charles Jourdan, cadernetas, diários e correspondências revelam gestos e hábitos de Eva. O quinto eixo, "O visível, o invisível: a moda como arte", dedica-se especialmente à produção de Zulnie David. Ao colocá-la em diálogo com a alta-costura internacional, a exposição propõe uma revisão crítica da história da moda no Brasil, problematizando processos de visibilidade e apagamento histórico.
A expografia de Leandro Leão veste os ambientes da casa-museu com 570 metros de tecido branco ou transparente. As cortinas desenham um percurso, ordenam fluxos, servem de suporte para projeções e textos curatoriais e, como fundos neutros, destacam peças do acervo. "Elas desenham uma nova camada que dialoga com o espaço sem o descaracterizar", explica o arquiteto. A identidade visual parte da geometria singular da fachada para criar uma tipografia batizada de "Eva", centro de todos os elementos gráficos.
Para Camilla Rocha Campos, diretora artística da Casa Museu Eva Klabin, a exposição traduz as diretrizes que orientam a instituição hoje: "pensar a casa como espaço vivo, o acervo como experiência e a cultura como campo de encontro. A exposição reafirma Eva Klabin como uma mulher que compreendia a arte, a moda e os objetos do cotidiano como dimensões inseparáveis do viver".
SERVIÇO
BELEZA HABITADA: EVA KLABIN: MODA E MEMÓRIAS
Casa Museu Eva Klabin (Av. Epitácio Pessoa, 2480, Lagoa)
e 31/1 a 24/5, de quarta a domingo (14h às 18h)
Entrada franca