Quando a rotina de um jornalista é interrompida pelo tremor das mãos e pelo vômito seco todas as manhãs, algo precisa mudar. Para João Paulo Arruda, essa mudança veio tarde demais para evitar a queda, mas a tempo de permitir a reconstrução. Seu livro, "Garrafas ao mar - Diário de um repórter internado para tratamento de alcoolismo" (Ed. Máquina de Livros), que será lançado nesta quinta-feira (28), a partir das 19h, na Livraria Travessa Ipanema, é o relato visceral de 110 dias internado em uma clínica carioca, escrito inteiramente à mão, em tempo real, enquanto os fatos se desenrolavam.
Discussões sobre saúde mental e dependência química ganham espaço na sociedade e "Garrafas ao mar" é o registro de alguém que precisou perder completamente o chão para reaprender a caminhar — e que preservou, mesmo no fundo do abismo, o olhar aguçado de quem passou décadas observando histórias alheias.
Arruda trabalhou em importantes redações cariocas ao longo de sua carreira. Aos 48 anos, no início de 2024, finalmente admitiu que precisava de ajuda. Andava cambaleante, sofria crises de sonambulismo e tinha apagões em casa ou na rua. Internava-se, mas enxergava o tratamento apenas como uma etapa a ser cumprida, não como uma necessidade real. Recaiu. Seu desempenho profissional piorou. Depois de mais de duas décadas no mesmo jornal, foi demitido.
"Mergulhei na depressão e na autopiedade. Fiquei um mês deitado na rede da sacada, bebendo desesperadamente. A essa altura, eu já era conhecido como o bêbado do bairro", relembra. Foi um amigo e sua namorada quem o levaram, pela segunda vez, a uma clínica — mas desta vez com uma diferença crucial: ele finalmente reconhecia estar doente e que a morte era iminente. Começava ali uma jornada transformadora.
Durante os 110 dias de internação, Arruda não tinha acesso a computador — uma das regras da clínica. Então escreveu tudo à mão. Preservou seu olhar de repórter mesmo na condição de paciente. Nas páginas de "Garrafas ao mar", descreve em detalhes sua rotina diária, narra histórias suas e de outros internos — alguns dependentes de álcool e drogas, outros que buscavam se libertar do vício em sexo e em jogos, um contingente que vem se multiplicando nos últimos anos. Não há autocompaixão nas crônicas. Há clareza. "Não escrevi os textos imaginando que publicaria um livro. Foi como se eu estivesse jogando garrafas ao mar, uma forma de reconexão comigo mesmo", compara.
O segundo livro de Arruda — ele é também autor de uma obra anterior sobre conflitos — chega em um contexto em que muitas famílias enfrentam situações semelhantes. Pode servir como espelho para quem está no meio da tempestade ou para quem observa alguém querido se afogando. Não oferece soluções fáceis. Oferece honestidade.
Desde setembro de 2025, Arruda está "limpo" e retomou sua carreira de jornalista. Continua sendo alcoólatra — como ele mesmo afirma com clareza: "Tenho consciência de que serei alcoólatra para o resto da vida. A doença é tão terrível que, mesmo estando bem, às vezes confundo paz com pasmaceira". Mas agora escreve sobre essa condição de um lugar diferente: o da recuperação, não o do desespero.