E Como se dizia quando eu era criança, fiz uma gula danada para não acabar muito rapidamente "A carne" (Todavia, R$ 84,90), da Rosa Montero. Há alguns anos, essa espanhola me toca diretamente com seus livros. Cheguei a afirmar que sentia a impressão de ela que escrevia "para mim". É que Montero reflete sensações compartilhadas por gente madura/velha/vivida nesta época de constantes fugas.
Em outros tempos, dificilmente o leitor entenderia a imaturidade da protagonista do romance, Soledad, de 60 anos, uma respeitada curadora de exposições de arte. Nesta época em que a pulsão juvenil se eterniza, Soledade vive uma tremenda dor de cotovelo depois de ser deixada por um homem casado, duas décadas mais moço. Em busca de uma cura para a fossa, ela se dispõe a enciumar o ex, contrata um belo jovem para acompanhá-la à ópera, e acaba se apaixonando pelo rapaz.
Ainda que Soledad tenha experiência suficiente para não se iludir pelo encantador escort, ela cai nos jogos de sedução do bonitão, que nem sempre cobra por seus serviços sexuais. Embora viva confortavelmente, Soledad não pode dispensar contratos de trabalho que incluem a convivência com gente medíocre e pretensiosa. Intui que seu padrão de vida seja superior ao carinhoso Adam, que jamais esconde continuar atendendo a uma clientela vasta de mulheres.
Ao se perceber apaixonada pelo acompanhante, Soledad aumenta os cuidados com o corpo para evitar as marcas da idade, refletindo sobre a angústia da finitude. O relacionamento a leva também a se recordar de trágicas histórias de amor de diversos escritores - algumas delas já reunidas por Rosa Montero no livro "Paixões" (Ediouro, R$ 37,90). Em um divertido capítulo, a própria autora "aparece" na trama, conversando com Soledad. É descrita pela curadora como alguém "com uma pressa desajeitada", que toma conta "do espaço inteiro: o casaco, a bolsa e o cachecol espalhados por toda parte, o celular, os fones de ouvido e uma pequena pilha de livros espalhados sobre a mesa" de um bar onde ambas se encontram. Soledad repara que Rosa veste "roupas da Zara ou algo pior, de uma daquelas lojas de departamento fajutas para adolescentes", embora não fosse "uma jovenzinha, por mais que quisesse se vestir feito uma".
Como outros livros de Rosa Montero, "A carne" incita a uma degustação de glutão em churrascaria. A leitura, que me tomou apenas um dia e meio, pois é daquelas que provocam ansiedade no leitor a ponto de largar tudo para se isolar no universo melancólico de um personagem em pleno processo de envelhecimento. Talvez o romance não combine com a contemporaneidade, tão fragmentária, tão difusa, sempre interrompida pela realidade de chamados pelo telefone celular, como se a vida fosse um compromisso incessante de dedicação ao outro. Vale a pena se desligar do mundo para pensar nele sob a ótica de Rosa Montero.