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Um território entre o desejo e a memória

Mayra Santos-Febre é uma das vozes mais decisivas da literatura caribenha contemporânea | Foto: Jose Arturo Ballester Panelli/Divulgação

Prosa da porto-riquenha Mayra Santos-Febres chega ao Brasil com o romance 'Fé Disfarçada', lançado em 2009

Depois de mais de trinta anos de carreira literária, a porto-riquenha Mayra Santos-Febres tem seu primeiro livro publicado no Brasil. "Fé Disfarçada", lançado pela Pallas Editora, é a tradução de "Fe en Disfraz", romance de 2009 que acompanha dois historiadores em encontros ritualizados na Universidade de Chicago.

O livro narra a perspectiva de Martín Tirado, historiador porto-riquenho especializado em preservação digital de documentos, que chega à instituição para trabalhar no Centro de Pesquisas Históricas de Estudos Latino-Americanos. Ali conhece Fé Verdejo, historiadora negra estudiosa da escravidão feminina nas Américas dos séculos XVII e XVIII. Entre os dois estabelece-se uma relação de desejo oblíquo: encontros marcados exclusivamente para a noite de 31 de outubro, véspera de Todos os Santos.

Narrado em primeira pessoa, o romance acompanha o estado de vigília de Martín nos dias que antecedem cada ritual. Enquanto escreve um relato que pode não sobreviver à noite, ele se confronta com o peso do desejo, a memória da diáspora africana e a ferida histórica da escravidão — inscrita, literalmente, na pele de Fé, em queloides que formam um alfabeto silencioso. O erotismo funciona como campo em que a história retorna ao corpo.

Samhain, o Ano-Novo das culturas pagãs celtas que originou o Halloween, é o momento em que o véu entre vivos e mortos se afina. Santos-Febres sobrepõe camadas de tempo para investigar quem tem o direito de narrar a história e de que matéria essa narração é feita. Fé Verdejo se disfarça não para escapar de si mesma, mas para se conectar com a ancestralidade que carrega.

Em 152 páginas, a autora constrói um romance que se alimenta de fontes primárias reais — narrativas de escravizados como Olaudah Equiano, Frederick Douglass, Harriet Jacobs e Mary Prince —, sem abrir mão da ficção. Santos-Febres revela que parte dos documentos foi recombinada, traduzida ou francamente inventada.

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Fé Disfarçada | Foto: Divulgação

"O catálogo da Pallas ainda é pequeno na representação da autoria afro-caribenha — e é justamente por isso que o lançamento de "Fé Disfarçada tem um significado especial para nós. Mayra Santos-Febres é uma das vozes mais importantes da literatura da região. Em sua obra, ela constrói personagens femininas potentes a partir das quais investiga sexualidade, desejo e as marcas do racismo e da escravidão", afirma Cristina Fernandes Warth, editora da Pallas.

Santos-Febres é romancista, poetisa, contista e professora de Literatura na Universidade de Porto Rico. Sua obra atravessa o corpo, a identidade negra e o desejo como territórios políticos. Recebeu a Bolsa Guggenheim em 2015 e foi finalista do Prêmio Rómulo Gallegos com Nuestra Señora de la Noche.