Por causa dos acontecimentos de 1927, o livro "Psicologia de Massa do Fascismo", de Wilhelm Reich (18977-1957) foi pensado em 1930 e publicado em setembro de 1933. Obra atemporal. Um clássico. Da editora Martins Fontes, a tradução de Maria da Graça M. Macedo imprime 369 páginas, e a ideia de que parto é: por que a fácil aderência ao fascismo?
A política começa pelo rosto-palavra, e ele a teatraliza por ser o rosto a política da representação, cujos traços encenam o "engano" ou a "passagem". Todo engano passa "entre" os contrários.
Diz Reich nas primeiras páginas que o homem fascista apoia-se "entre" o homem superficial (o da racionalidade aparente, ajustado às normas) e o homem profundo (o da espontaneidade, do amor, da criatividade), não havendo, portanto, contato direto do nível superficial com o profundo. Por isso, com um rosto que amalgama traços de sentimentos revolucionários e de ideais sociais reacionários, o fascista expressa o paradoxo, na medida em que as linhas de seu rosto estão "entre" forças contrárias, sendo nem revolucionário nem reacionário.
Assim, ao mesmo tempo, o homem fascista "é-e-não-é". Tal paradoxo é a própria representação do rosto, o que significa afirmar que o paradoxo não pode ser visto ainda que o rosto esteja exposto. Algo se oculta quanto o rosto fascista se expõe.
"A questão fundamental é saber por que motivo as massas se deixam iludir politicamente". A palavra "ilusão" deriva de "lúdico", "jogo", quer dizer, "ser-e-não-ser" misturam-se na própria representação do rosto, fazendo com que a mentira se ajuste à verdade, o que impede de a massa ver "o-que-é" ou "quem-é", afinal, a representação rostral joga ou engana com seus traços.
A parede é intransponível. Colocá-la abaixo, só quebrando-a. O fascismo, porém, não a quebra: infiltra-se. Na página 61, Reich escreve que "o fascismo se infiltra" e, como toda infiltração, "está-e-não-está" na parede. No caso da história alemã, o fascismo infiltrou-se na classe operária desde o seu cotidiano; o movimento revolucionário, porém, segundo Reich, explorou de maneira errada a importância de pequenos hábitos do dia a dia.
Então, aderir ao fascismo significa que sua linguagem infiltra-se no hábito e, uma vez sendo hábito, exponencia a já dada prática semântica, por exemplo, liberdade e família. Observa Reich na página 63 que a linguagem revolucionária, no entanto, limita-se à propaganda semântica da fome, e essa não se infiltra no cotidiano, não tem aderência social.
Infiltrar-se no cotidiano implica o não estranhamento, ou seja, a massa identifica-se com o rosto fascista por meio das palavras família, a qual mantém estreita relação com a nação e a religião. Hitler já dizia que o bolchevismo destruía a família e, na página 183, lemos que a linguagem fascista, sendo familiar, é muito forte em relação à criança.
Considerado o Lênin alemão, Hitler representou a liberdade e, ao som de melodias revolucionárias com letras reacionárias - outro exemplo da passar "entre" os contrários -, transmitia-se seu nome nas casas pelo rádio, instrumento de que Goebbels soube se servir para disseminar a estética política do nacional-socialismo no cotidiano.
O caráter intermediário de Hitler foi concebido em sua prisão, em 1924, quando deixou de acreditar na força bruta como única para chegar ao poder. Uma vez solto, seu movimento político passou a defender que toda força que não provém de uma firme base espiritual torna-se indecisa e vaga. Sua política passou a se movimentar "entre" as forças física-e-espiritual.
Para chegar ao poder Maior, o rosto-palavra de Hitler infiltrou-se, primeiro, no lugar Menor, pois o fascismo sabe só ser possível se infiltrar por meio da teatralização do rosto, é onde a mentira, ajustando-se à verdade, representa "o-que-é-não-é" - paradoxo.
O fascismo paradoxa a política; reduzi-lo apenas ao dualismo bem e mal torna-se erro, pois, na condição de paradoxo, o rosto fascista joga "entre" os extremos. Página 63, Reich observa: "não se alimenta a construção de hábitos de vida revolucionários". O homem fascista, ao contrário, ao passar a imagem de revolucionário, alimenta a construção de hábitos com os sentimentos nacionalistas, que são o prolongamento direto dos sentimentos da família autoritária.
Na página 206, escreve-se: "(…) é preciso que se libertem da maneira de ver tudo como branco ou preto, (…)". "Entre" branco-e-preto, espaço de exceção, e rosto fascista passa por ele.