Por: por Olga de Mello - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / LIVROS / GENTINHA: Gentinha de alma carioca

os cariocas de Moutinho reomantam a Nelson e Fernando Sabino | Foto: Mônica Ramalho/Divulgação

Desde que abraçou a literatura paralelamente ao jornalismo, Marcelo Moutinho tem apresentado personagens ficcionais calcados na vida real, pessoas com as quais os leitores nem sempre se identificarão, sem atividades profissionais ou um cotidiano glamouroso, nem pautados pelo identitarismo tão em voga na literatura brasileira contemporânea. Os encantadores contos de "Gentinha" (Record, R$ 65) trazem como protagonistas essas pessoas pouco notáveis, visíveis apenas pelos serviços que prestam: são pedreiros, empregadas domésticas, atendentes em quiosques à beira-mar ou em bares com karaokê, misturadas à classe média para a qual trabalham.

A 'gentinha' do título perde seu sentido pejorativo ou é transportada, como qualificativo, para personagens que se mostram mais merecedores do desprezo do leitor, quando comparados a quem exerce uma função social de coadjuvante das categorias economicamente favorecidas. Criado nos subúrbios cariocas, Marcelo Moutinho sabe transitar entre os muitos polos da vida do Rio de Janeiro, cidade em que a violência urbana se impôs como parte do cenário e a compaixão pelos não afortunados se perdeu diante da realidade dura da megalópole. O carioca de Moutinho descende diretamente dos personagens estruturados pelos escritores que imortalizaram a crônica, entre eles Nélson Rodrigues, Fernando Sabino e Sérgio Porto. São homens e mulheres que pouco expressam o cansaço ou descontentamento com a vida, e, sem buscar o confronto de uma luta de classes, vivem distantes da melancolia ou revolta quanto ao destino social.

Nos anseios e nas esquisitices que compõem uma sociedade desigual estão a força desses personagens e dos episódios que os definem. Um bebê revoltado pela ausência de uma mamadeira surrupiada, só de maldadezinha, por um menino de rua, a empregada "praticamente da família", pivô de uma situação prestes a mudar toda a realidade dos patrões, a mulher que, por influência da mãe, católica, teme a força espiritual maléfica dos doces distribuídos no dia de Cosme e Damião — mas, não resiste a experimentar um deles —, a fã ardorosa em constante vigilância sobre o astro da música, a quadrilha de ladrões disfarçados de Papai Noel de loja. São essas figuras com as quais os privilegiados pelo acaso biológico encontram nas ruas, nos bares, nas praias, oferecendo sorrisos condescendentes, que tornam "Gentinha" um adjetivo carinhoso e brejeiro, carioquíssimo, até o fundo da alma.

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Gentinha, de Marcelo Moutinho | Foto: Divulgação