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Do anonimato à narrativa

O levantamento de Mariana Filgueiras mapeou 37 personagens domésticas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024 | Foto: Ana Alexandrino/Divulgação

'Quirinas', da pesquisadora Mariana Filgueiras, analisa como literatura brasileira ignorou trabalhadoras domésticas até recentemente

Quase sete milhões de brasileiros trabalham como domésticos — babás, faxineiras, cozinheiras, diaristas, cuidadores de idosos. A maioria é mulher, negra, pobre e chefe de família. É a maior categoria de trabalho do país, a mais precarizada, a que menos se aposenta. Ofício legado da escravidão, o trabalho doméstico foi decretado essencial durante a pandemia de Covid-19. Ainda assim, na história da literatura brasileira, essas mulheres praticamente não existem — ou existem de forma tão estereotipada que poderiam não existir.

Essa contradição moveu a pesquisa de doutorado de Mariana Filgueiras, jornalista e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF). O trabalho, contemplado no Prêmio Capes de Tese 2025, virou o livro "Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea", que lança nesta quinta-feira (16) com debate online entre a autora, sua orientadora Eurídice Figueiredo e Eliza Araújo. O evento acontece às 18h no canal Youtube "Estudos da Literatura" da UFF.

O levantamento de Filgueiras mapeou 37 personagens trabalhadoras domésticas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024. O resultado é desolador: durante 156 anos, essas mulheres aparecem sempre de forma estereotipada, sem nome, frequentemente violentadas, associadas à ignorância, usadas como escada nas tramas ou alívio cômico. Falam pouco. Seus nomes, quando existem, são esquecidos. "A maioria dos nossos escritores não teve qualquer interesse na subjetividade dessas mulheres, em desenvolver alguma trama, dar a elas um nome. Personagens com imenso potencial dramático, que testemunham as entranhas da elite, são desprezadas", observa Mariana.

O livro recebe o nome de "Quirinas" em homenagem à personagem Mãe Quirina, do conto "Babá" (1904), de Lima Barreto — uma das raras exceções na literatura brasileira. Lima Barreto se interessou pela personagem, contou sua história de vida. Isso praticamente não acontecia. Alguns críticos defendem que a estereotipia das empregadas domésticas seria um recurso estético de denúncia social. Filgueiras discorda. "Depois desse levantamento, não tem como concordar com isso. É uma prática muito recorrente, um padrão, um sintoma da neurose cultural brasileira", afirma.

A virada começa em 2015, quando surgem os primeiros romances com trabalhadoras domésticas como narradoras ou com participação mais efetiva. As primeiras protagonistas de fato aparecem apenas em 2018, no romance "Perifobia", de Lília Guerra. Filgueiras credita essa mudança a um "efeito simbólico das políticas públicas" — Lei de Cotas, Lei das Domésticas — que resultaram em mobilidade social. "Seus filhos e netos entraram na universidade, começaram a escrever as histórias das mães e avós. Muitos romances são dedicados a elas. Desde 2018, já foram lançados mais de 10 romances com domésticas como protagonistas. Em 2024, 'Louças de Família', de Eliane Marques, ganhou o Prêmio São Paulo de Literatura."

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Capa de Quirinas | Foto: Divulgação

O livro analisa títulos como "Com Armas Sonolentas" (Carola Saavedra, 2019), "Suíte Tóquio" (Giovana Madalosso, 2020) e "Solitária" (Eliana Alves Cruz, 2022) — primeiros romances na história literária brasileira a colocar a trabalhadora doméstica no centro da narrativa. Neles, as personagens ganham subjetividade, seus familiares integram as tramas, o trabalho doméstico vira tema e ação do enredo, gerando cenas originais e conversas orgânicas.

Filgueiras alerta, porém, para o risco dos "estereótipos positivos". Ao reabilitar personagens esquecidas, é preciso evitar criar heroínas previsíveis, sem falhas de caráter, sem contradições. "Isso também as desumaniza", conclui. A socióloga Patricia Hill-Collins chama isso de "imagens de controle" — estereótipos que engessam personagens tanto negativamente quanto positivamente.