Comecei a ler "Os anos" (Fósforo, R$ 75,90), de Annie Ernaux em 2022. Ainda não acabei. Prezo particularmente dois dos direitos inalienáveis do leitor, segundo Daniel Pennac: não ter a obrigação de terminar um livro e pular os trechos que bem entender. Li diversos livros de Ernaux, rapidamente. Todos curtinhos, tudo dentro da classificação de "autoficção". "Os Anos" é diferente. Sorvo aos pouquinhos, reflito, deixo ao lado da cama. Tem muito de sua trajetória, claro, porém, é um livro planejado, daqueles que dão trabalho ao autor.
Não que a nobelizada Ernaux seja relapsa nas digressões em torno de sua vivência. Ao contrário, a autoficção permite ao autor manter-se à parte do leitor, colocar sua experiência sem admitir o personalismo. Onde, afinal, começa o universo fictício, onde se localizam as memórias, o testemunho, a admissão?
"Os anos" se investe de mais universalidade para relatar não somente as experiências da autora, mas as transformações da sociedade francesa no pós-guerra. O uso da primeira pessoa do plural para apresentar os acontecimentos concede uma voz abrangente ao narrador, mas não o aproxima do leitor. "Nós" distancia quem lê de quem conta a história, ainda que, simultaneamente, reivindique a legitimidade de falar por um grupo geracional da infância à maturidade. Em alguns momentos, "nós" são as crianças que mostram suas prendas, recitando ou cantando, para o grupo de adultos. Adiante, o pronome pode ser abandonado para relatar episódios particulares, geralmente tendo como protagonista uma mulher. "Nós" vai então representar os que descobrem a liberdade de viver depois de uma infância temerosa da morte iminente durante a guerra na Europa. Penicilina, anticoncepcionais oferecem experiências que obedecem apenas às vontades individuais, quando acaba a época em que a vergonha "era uma assombração na vida das mulheres", cujas histórias de amor, até chegar o casamento, "aconteciam escondidas do controle e julgamento dos outros".
Ernaux tinha mais de 60 anos quando lançou "Os anos", depois de outros curtos livros autobiográficos, ainda engatinhando na autoficção, que hoje, em época de imensa autoexposição pessoal, ganhou diversos praticantes.
Foi assim que classificaram o primeiro e premiado livro do francês Anthony Passeron, "Os Meninos Adormecidos" (Fósforo, R$ 65,90), que entrelaça os avanços da medicina no tratamento da Aids com as recordações de seu boêmio e dependente químico tio Desiré, abordando ainda a marginalização dos infectados nos anos 1980. Na pequena cidade onde moravam, a Aids se espalha entre os grupos de jovens permanentemente drogados, os "meninos" do título. O charmoso Desiré casa-se com outra soropositiva. Depois da morte do casal, a filhinha também padece com Aids até falecer, criança. Ainda que melancólico, Passeron aponta um futuro melhor no enfrentamento do desconhecido - sejam vírus ou problema sociais.
Já Annie Ernaux, na maturidade, inicia "Os Anos" afirmando: "Todas as imagens vão desaparecer". Na conclusão, ela sofre com a finitude das recordações, admitindo o quanto gostaria de "salvar alguma coisa deste tempo no qual nunca mais estaremos".