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O romance de uma vida real

Julinho Barroso e Marcus Galiña lançam o livro nesta terça no Circo Voador | Foto: Mônica Ramalho/Divulgação

Produtor cultutal Julinho Barroso tem sua trajetória contada em livro de Marcus Galiña

Criado na Glória, Julinho Barroso construiu sua trajetória nas noites da cidade, como produtor, operador de som e articulador de encontros que ajudaram a movimentar as ruas cariocas. Essa ganha corpo literário através de "Dias de Glória, Noites de Cárcere - A História de Julinho Barroso" (Pallas Editora), escrito por Marcus Galiña, ator, produtor e diretor teatral que o conhece há anos.

O lançamento da obra nesta terça-feira (17), a partir das 18h, no Circo Voador, terá sarau musical, poético e performático, além de sessão de autógrafos. Galiña tece ficção sobre a experiência real de Julinho: preso injustamente e mantido no cárcere por quase nove anos. A narrativa reconstrói uma vida de agitação cultural que começou muito antes da prisão.

O autor constrói um retrato complexo e contraditório de um homem impulsivo, levado por escolhas que se impuseram.

Bem antes de conhecer a prisão, Julinho foi coroinha exemplar da Paróquia Sagrado Coração de Jesus. "A Igreja, durante um tempo, me seduziu, mas eu estava claramente comprometido à outra instituição humana, também com séculos de história, eixo da ancestralidade urbana: a Rua", diz em trecho do livro. "A Rua te renomeia, te sacaneia, te redefine."

O historiador Luiz Antonio Simas, na apresentação, define bem o personagem: "Esqueçam o imaginário do herói como ser virtuoso, sem contradições. Julinho é herói de carne, osso e sangue, forjado nas esquinas cariocas com cheiro de esgoto e bala perdida cravada na parede." Desde cedo, Julinho estava dentro do noticiário local: movimento dos camelôs, figurinhas raras no jogo de bafo, peripécias de menino de rua. Para ele, o romance seria uma espécie de biografia de botequim.

"Seria uma biografia, mas caiu cachaça em cima, derramaram gordura quente, caldo de feijão, mentirinhas de fanfarrão, molho de gurjão, fatos concretos misturados com delírio de folião", descreve Julinho no livro. "Neste livro, a vida é mãe, mas o botequim é pai. Isso aqui é um filhote literário feito de bairros, fatos, lugares, enredos e toda comédia humana, tal como a presenciei nos meus dias de glória e nas minhas noites de cárcere."

"Brinco dizendo que é um livro escrito em primeira pessoa terceirizada. Sou dramaturgo, então encarei o Julinho como personagem da cidade, estilizei, fantasiei um pouco, pois me sinto melhor na liberdade. E essa escolha também teve razões muito práticas: preservar identidades e evitar futuros processos." A amizade entre os dois começou em 2013, no movimento Reage Artista. No ano seguinte, idealizaram o Ocupa Lapa, ocupação cultural dos Arcos com seis edições em um ano e meio. Depois veio o Ocupa MinC. A ideia do livro fermentou anos até vingar em 2018.

Uma campanha de financiamento coletivo alcançou 372 amigos e incentivadores que poderão retirar seus exemplares no lançamento. A capa foi ilustrada pelo artista visual e grafiteiro Marcelo Ment. Marcus já havia trabalhado com a Pallas, cujas editoras, Cristina e Mariana Warth, já conheciam a fama do personagem. O restante, como diz Julinho, é história. E se a rua renomeia, agora a literatura registra.