Por: por Olga de Mello - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / LIVRO/ AS VOZES DA NOITE: Sobre adolescência,leitores e memórias

A simplicidade de Natalia Ginzburg pode ter se tornado banal para quem faz uma leitura mais direta | Foto: Divulgação

Edouard Louis, jovem escritor francês, classificou a literatura de Elena Ferrante como "adolescente". Imagino que ele cultue seus conterrâneos Arthur Rimbaud e Raymond Radiguet, notáveis por obras excepcionais escritas na adolescência (mesmo). E já houve época em que se escrevia sem definir o público, mas isso foi na pré-História, antes da Internet.

Alguns dias atrás, ouvi alguém - de meia-idade - tecer loas a um best-seller brasileiro - ficção previsível de provável esquecimento no futuro -, desdenhando de "Léxico Familiar", de Natalia Ginzburg. O mercado editorial compreende perfeitamente esses leitores, que têm o direito legítimo de se entregar ao escapismo fácil. Surpreende, no entanto, a rejeição a Ginzburg, uma das mais celebradas autoras italianas do século XX, que apresentou, sem alegorias, através das relações de família, as transformações sociais em contraponto aos papéis tradicionais da cultura europeia.

A simplicidade de Ginzburg pode ter se tornado banal para quem faz uma leitura mais direta, algo como entender a Bíblia pelo que está escrito e não por uma linguagem subjacente. Talvez seja um fenômeno geracional. Muitos sub 50 reclamam de textos com vocabulário em desuso e narrativas pouco descritivas. A escrita jornalística se entranhou na literatura e pode ter reduzido a capacidade de abstração do leitor, acostumado a um estilo direto de pretensa objetividade.

Natalia Ginzburg tornou-se referência na literatura ao refletir sobre uma sociedade marcada pela insegurança durante a Segunda Guerra Mundial e suas oscilações políticas, particularmente, o fascismo. Em "As vozes da Noite" (Companhia das Letras, R$ 79,90), Elsa, a narradora, observa a contraditória família De Francisci, que domina um vilarejo. O patriarca De Francisci é socialista e conta com a proteção de seu administrador, o fascista Basco, criado como filho. A mãe de Elsa faz de coro grego mordaz, relatando, em incessantes monólogos, tudo o que ocorre no lugar, estranhando a indiferença da filha quanto à necessidade de encontrar um marido - preferencialmente um De Francisci. As "vozes", em especial a da mãe, espelham os acontecimentos, criticando os novos arranjos na comunidade que, gradualmente, perde sua coesão. Os padrões se rompem nesse cenário que precisa ser reconstruído depois das perdas materiais e pessoais causadas pela guerra. O estilo de vida em mutação se estrutura sobre a melancolia dos que sobrevivem ao conflito entre nações.

Em posfácio que acompanha a edição atual, Natalia Ginzburg conta que, em 1961, morando em Londres, ela viu surgir, quando escrevia "Vozes", lugares da própria infância, "não solicitados, não convocados, (...) gerados pela saudade". Um ano mais tarde, essas recordações são a base de sua obra-prima, "Léxico familiar", um romance de "pura, nua, descoberta e declarada memória". Em tempos de informações ininterruptas, o passado se mostra pouco interessante como elemento de evolução do futuro.