Por: Olga de Mello - Especial para o Correio da Manhã

CRÍTICA / LIVROS: A boa vizinhança

Yannick Lammens | Foto: Divulgação

As editoras brasileiras fecharam 2025 com a venda de 60,33 milhões de livros, uma receita de R$ 3,09 bilhões, um crescimento de 7,75% em volume e 8,68% em faturamento comparados ao ano anterior. Até abril, o Rio de Janeiro é a Capital Mundial do Livro, título concedido pela Unesco ao reconhecer a importância dos programas políticos de inclusão social através do letramento e da leitura desenvolvidos pela Prefeitura carioca.

Essas são algumas observações que me vêm à mente quando 2026 oficialmente começa - depois do Carnaval, claro - e recebo novas estantes para acomodar os livros empilhados sobre prateleiras ocupadas por outros, mesas, móveis casa afora. A rearrumação torna-se motivo de desespero, distante da estética decorativa, obedecendo a uma lógica: temática, ordem alfabética, país de origem dos autores.

E, por culta das invasões europeias pelo planeta, começam os problemas. Escritores indianos devem ficar perto dos jamaicanos, quando escrevem em inglês? Faz sentido deixar lado a lado Tagore e Marlon James? Outro James problemático é Henry James, novaiorquino fissurado pela Inglaterra, onde viveu e morreu. Fica com os conterrâneos ou com os ingleses? E Doris Lessing, que nasceu no Irã, passou a infância no Zimbabue até se mudar definitivamente para Londres? A velha dúvida sobre Kafka - fica junto aos tchecos (sim) ou aos austríacos/alemães?

Essas são algumas observações que me vêm à mente quando 2026 oficialmente começa - depois do Carnaval, claro - e recebo novas estantes para acomodar os livros empilhados sobre prateleiras ocupadas por outros, mesas, móveis casa afora. A rearrumação torna-se motivo de desespero, distante da estética decorativa, obedecendo a uma lógica: temática, ordem alfabética, país de origem dos autores. E, por culta das invasões europeias pelo planeta, começam os problemas. Escritores indianos devem ficar perto dos jamaicanos, quando escrevem em inglês? Faz sentido deixar lado a lado Tagore e Marlon James? Outro James problemático é Henry James, novaiorquino fissurado pela Inglaterra, onde viveu e morreu. Fica com os conterrâneos ou com os ingleses? E Doris Lessing, que nasceu no Irã, passou a infância no Zimbabue até se mudar definitivamente para Londres? A velha dúvida sobre Kafka - fica junto aos tchecos (sim) ou aos austríacos/alemães?

Nos últimos anos, um novo boom de literatura latino-americana domina as editoras brasileiras, que investem nesse nicho e também em obras de escritores africanos, oriundos das ex-colônias europeias, asiáticos e em mulheres. Nunca se viu tanta mulher publicada em Pindorama, nativas ou estrangeiras. Tenho ganhado ou adquirido muitos livros de autoras que desconhecia, como a haitiana Yanick Lamens, autora de uma preciosa joia: "Banho de Lua" (Bazar do Tempo , RS 88,90), que lhe deu o Femina, em 2014, e conta a história da dominação na ilha ao longo de diversas gerações, submetidas aos poderosos "donos" das terras, sem jamais perder os laços de culturas ancestrais. A geografia manda nas prateleiras. O romance de Lamens ficará perto dos livros das magníficas Françoise Ega (nascida na Martinica e radicada na França) e Maryse Condé (de Guadalupe, também expatriada para a França).

Uma boa vizinhança.